segunda-feira, 1 de junho de 2020

Levantes

E finalmente chegou o dia em que perdemos o medo.Súbito, já não nos importa mais se vamos morrer. Porque todos vamos e a caçada permanece.Incólumes, governantes e empresários seguem a campanha pelo retorno à normalidade e a retomada de trabalhadores a seus postos,cerrando filas em detrimento de suas próprias vidas. Risco? Contaminação?Sob o discurso velado da fome, um burburinho se torna discurso oficial e lança às costas da população mais uma responsabilidade:a de decidir quem vive e quem morre. Sem que alguém diga como a desigualdade social pode garantir o isolamento necessário ao controle do covid-19 entre a população vulnerável. A que não está em quarentena, por absoluta necessidade de sobrevivência. A que morre todos os dias, nas esperas das emergências superlotadas ou sob os intermináveis tiroteios financiados pelas políticas públicas. A que teme por seus filhos, maridos e amigos, quando portam máscaras, a que ocupa os postos de trabalho fundamentais .De outro lado, segue o vozerio dos bem nascidos. Já são longas as filas de carros - sim, senhores, carros - enfeitados com bandeiras nacionais, que seguem as longas avenidas dos bairros de maior IPTU das cidades pedindo pelamordedeus que não deixemos a produção do país ao relento,que retomemos nossas atividades para que a economia - sempre ela - não seja prejudicada.Corpos?vidas?São estatísticas, usados aqui e ali, nos discursos oficiais, para justificar o impossível. Algumas mortes são mais representativas que outras, aparentemente.Contudo,o que não se esperava,em um tempo onde os mortos se contam às dezenas de milhares, era que um evento, um assassinato, somado aos muitos que permanecem nas páginas diárias da imprensa, fosse provocar o levante há tanto tempo esperado. Porque não se tratava “apenas ‘de uma morte. Mas do sistemático genocídio de mais um corpo negro. Somado aos milhares de nomes de meninos, cujas fotos vão sendo pouco a pouco enfileiradas nas páginas dos jornais. De repente, algo furou a bolha de medo e imobilidade erguida diante da pandemia. E as ruas começaram a ser tomadas de corpos,não mais em protestos virtuais, mas sim, ombro a ombro,máscaras e álcool em gel, berrando a plenos pulmões:#blacklivesmatter. Nunca importaram para o Estado.Nunca para o crescente discurso fascista que margeia daqui e de lá, encontrando eco nessas paragens latinas, em grandiloquentes gestos de desprezo à preservação da vida.Súbito, bastou! No último domingo, dia 31 de maio, as primeiras mobilizações começaram a acontecer.Vindos não se sabe de onde, mascarados marcham nas ruas do país, somados-e aos braços erguidos de grande parte do mundo. Entre fogo e gasolina, resta aos governantes refletirem, uma vez visto o ocaso total do regime representativo que os sustentou por tantos séculos:como enfrentar uma multidão que perdeu o medo da morte?Como ousar retornar o estado anterior, quando iooi primeiro movimento foi feito e encontrou ecos os corpos e mentes de tantos?E enquanto muitas vozes se posicionam contrárias ao fascismo, a pandemia segue, sem que, desse lado do oceano tenhamos vacina, políticas públicas de saúde, garantia de renda mínima a quem não pode ainda voltar a trabalhar.Súbito, a raiva e a indignação - até então silenciadas diante do caos pandêmico- atravessaram as janelas e iniciaram sua marcha, sem destino certo.o que importa é ocupar espaços.muitos.Todos se preciso e derrubar muros, para que nenhum outro corpo seja novamente assassinado sob os pés do Estado.