domingo, 12 de julho de 2020

Sob o mal-estar social em tempos de pandemia

Sob o mal-estar social em tempos de pandemia Junho passou como um golpe de foice, cortando todas as nossas certezas sobre o que significa estar inserido em uma pandemia, a tolerância de todas frentes aos mortos – milhares deles - a ineficácia do sistema mundial de prevenção a epidemias de escala global, a previsão de retorno e do que significa normalidade. Como chamar normal um contexto onde seguimos sob a ameaça de morte, as emergências ainda acolhem muitos doentes, os testes de vacinas seguem em franca evolução, mas sem um cronograma possível e as ruas – inacreditavelmente - seguem cheias, como se não tivéssemos nas esquinas um vírus capaz de entupir completamente os pulmões e literalmente interromper a circulação do oxigênio causando asfixia, o comprometimento do organismo e a morte do paciente. Para não falar nos efeitos colaterais dos muitos que se recuperam. Alheios à gravidade dos sintomas do vírus, homens, mulheres e crianças começam pouco a pouco a tentar recuperar o tempo perdido em mais de 120 dias de quarentena- para aqueles que podem dar-se ao luxo de estar em isolamento - e já é possível ver restaurantes, lojas, padarias, repletos de pessoas. Algumas assustadas, usam máscaras e protetores para olhos. Outros, inadvertidamente, ousam atravessar a cidade sem proteção. Aqui e ali os transportes públicos seguem lotados e já são maiorias que não usam qualquer tipo de proteção- mesmo dados os decretos do governo federal, estadual e municipal impondo o uso de máscaras – sob o risco de multa. E assim o Estado conduz sua mise-en-scène, enquanto as operações policiais seguem deixando dezenas de mortos a cada dia, as praias restam interditadas, mas em pleno uso, os desempregados acumulam-se tentando sobreviver em um ambiente de convívio majoritariamente virtual, de trabalhar, consumir, socializar e divertir-se e os primeiros drive-ins. começam a adentrar a cidade na mesma urgência em que empresas e universidades, serviços e profissionais liberais tentam adaptarem-se ao “novo normal”. Enquanto cientistas alertam para o risco de contaminação por vias aéreas do novo covid-19, bares e casas noturnas – com honrosas exceções- recomeçam a abastecer o estoque de bebidas alcoólicas, com restrição de acesso a suas dependências. E no apagar das luzes, mais um ministro da Educação defende o braço ainda mais pesado do Estado – como se já não pesasse sobre a população mais vulnerável- diante da educação de crianças e jovens. Nesse cenário de horrores a república brasileira se desfaz em pedaços – de cidadania, respeito e justiça. E o racismo, a homofobia e o genocídio de negros indígenas, pobres, mulheres, lgbtqs e crianças seguem sendo a pauta silenciada dos jornais. E sobrevivemos todos os dias em um Estado de mal-estar social - enquanto os primeiros shows de drive-ins. ocorrem nos bairros mais nobres do Rio de Janeiro. E o campeonato de futebol segue. As novelas programam novos capítulos. E as empresas turísticas, alimentícias, de marketing, esportes fazem planos para 2021, diante de um 2020 que ainda não começou.