sábado, 5 de setembro de 2020
Um sábado de sol em plena pandemia
Enquanto nossas semanas de inverno se tornam uma vaga lembrança e o sol de primavera abre as janelas do peito de todos nós, as ruas do centro do Rio recomeçam a ser ocupadas.Feiras livres, bicicletas, vendedores ambulantes, a cidade se reinventa, perigosamenente, traçando uma corda bamba entre a normalidade e o caos, criando novos hábitos e remodelando outros, sem jamais deixar de caminhar entre Eros e Tanatos,morte e vida atravessando os trilhos de todos os dias. Tornou-se comum asssitir pequenas aglomerações de famílias inteiras sem máscara, ou pessoas que se arriscam caminhando sem proteçã alguma. Em todos os rostos, cobertos ou não, o prazer e o medo de sentir na pele o sol de um sábado azul. E é com um sorriso besta debaixo das máscaras que percorro a trilha vazia da Praça 15 até o Píer Mauá, encontrando no caminho casais, crianças e cachorros, a grande maiorria sem máscaras. Sinto aos poucos as lágrimas escorrerem do rosto protegido com óculos e duas máscaras, ao pisar novamente o chão do centro do Rio, tantos fins de semana passados no percurso do casario, do calçamento de pedra antiga, do inevitável abandono da esquina.Como se aos poucos, ao me reapropriar daquele território, tantos meses de ausência, a curvatura das asas se contorcesse querendo novamente alçar voo. Aqui e ali, enxergo movimentos contrários a toda recomendação, há bares abertos e cerveja sobre as mesas, pipoca vendida na esquina, balões coloridos na frente do museu.Tudo passa como dantes.Mas em meio a balbúrdia que afirma ser a vida uma teimosia furiosa de quem resiste, é impossivel não entreouvir o silêncio ressoante de tantos mortos,milhares deles, que sentimos até os ossos, em um frio que atravessa o peito e que convida a olhar as águas azuis da Báia, à espera de dias melhores
Assinar:
Comentários (Atom)