domingo, 12 de abril de 2020

Isaac

Faz exatamente uma semana que ensaio esse texto. A cada dia ele começa de uma forma diferente. Motivador, ansioso, dramático, leve. O que não muda é o fato de que pareço estar escrevendo sobre o mesmo dia. Porque são as mesmas horas, divididas entre o intervalo de acordar e dormir novamente. Entre o estranhamento dos olhos que se abrem, no percurso da cozinha para o café já cabem todas as notícias sobre a pandemia e enquanto volto para o quarto, mais corpos se acumulam ao redor do mundo. No Brasil somamos o primeiro milhar de mortes, enquanto a presidência continua ignorando os apelos desesperados dos profissionais de saúde e cientistas para que permaneçamos em casa. E já há coveiros sendo contratados às dezenas para lidar com as mortes em Nova York, contrastando com o número de lives no instagram. Enquanto três milhões de pessoas se unem às músicas e shows de seus artistas preferidos, no extracampo há dezenas de trabalhadores produzindo luzes, cenário, vídeo e som, garantindo que a mensagem chegue ao respeitável público, de que devem permanecer em casa, fruindo a diversão que os alcança gratuitamente via redes sociais. Mas permanecem, fora do alcance da câmera, quase todos sem máscara. No bairro onde moro as máscaras começam a ser uma constante, o que não impede a região de ser o novo epicentro do Covid-19 da cidade, unindo uma acelerada contaminação de pessoas às primeiras mortes em hospitais públicos, enquanto o fluxo de carros e ônibus segue igual. E a fila do banco permanece exatamente como antes, corpos acumulados à centímetros de distância e trabalhadores sem máscaras fornecendo toda ajuda necessária. Alguns dirão que são escolhas. Mas qual é a escolha dos entregadores de comida, farmácia, mercado que cortam a cidade garantindo que famílias inteiras possam sobreviver em modo home office? Enquanto cruzo o espaço da recepção do prédio para receber minha encomenda, há mais um rosto descoberto, que me estende a máquina de cartão. Sem máscaras. Sem proteção. Só a necessidade urgente de sobreviver, para si e para o filho de sete meses, Isaac, cuja foto o orgulhoso pai me apresenta, no celular. E segue seu percurso, carregando no bolso a única proteção de que dispõe: um pequeno vidro de álcool em gel. No momento que que cruza meu portão mais uma morte é anunciada, alguém publica uma live sobre atividades para crianças no confinamento e como fazer máscaras em casa. E nas ruas cada vez mais silenciosas a ausência dos sons da procissão de Páscoa provoca um vazio no meio do peito e seguimos procurando um sentido real de renascimento, sem filas, compras ou a manifestação externa de sentimentos, enquanto o pequeno Isaac, provavelmente sentado no chão da sala, exatamente como o vi na foto, espera que seu pai retorne mais um dia para casa.

sábado, 4 de abril de 2020

enfim, o terror

E finalmente chegou o dia em que o terror alcanca nossos espacos domesticos.Vem devagar, em um espirro, na tosse abafada na hoora de dormir, nos primeiros casos de pessoas proximas que podem ter contraido. e um frio enorme gela o peito, ao ler os jornais da manha em que todos os dias ha um rosto,uma historia, nas mortes diarias e Às centenas. E o tempo que insiste em passar cada vez mais devagar e a brutal distancia da normalidade que se da, em eventos cancelados, portas de cinemas, casas de shows, cafes, restaurantes,que se fevcham,para quem sabe,nunca mais abrir.assim como as casas, as almas e a vida.aos poucos tudo parece se fechar em si,silencio e dores,nos empurrando cada vez mais para dentro de nos memsos,em uma atmosfera onde on tempo parece se dilatar, diante da compressao de nossos espacos cotidianos. e como viver, sem a dimensao infinita do ser, sem sentir a dor de estar preso, condenados a recolher lentamente as folhas de um calendario,one os dias parecem durar meses e as horas arrastam-se entre a sala e a cozinha, sem remedio possivel, enquanto os ponteiros do relogio e toda a vida parece girar ao contrario,sen que alguem no mundo possar responder:ate quando?

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Em silêncio

Estamos em silêncio e a cada vez que um de nós se cala, uma atmosfera mais pesada de medo e insegurança se afirma, como uma densa névoa invadindo as esquinas onde ninguém mais passa. E por todo lado as janelas vão pouco a pouco se apagando e já ninguém mais vai à varanda. Mas a televisão permanece ligada, esperando a novela que não vai começar. E ainda restam dois ou três homens no bar a comentar o futebol do final da temporada e já não há mais vendedores de flores. Só os infinitos corredores das farmácias, com pessoas assustadas, desviantes, pálidas, virando o rosto quando se encontram, continuamente encolhendo os corpos e seguindo seu caminho, mal tocando as máquinas de cartão que as balconistas, sempre as mesmas mulheres sem máscaras e luvas, sem folgas ou perdão, tocando o sujo dinheiro das gentes nas filas e voltando para casa no mesmo ônibus, cada dia mais atrasado e vazio. E os mesmos moradores de rua, com os mesmos velhos jornais. E seus cães. E já são muitos os rostos que não vão mais ver o fim do ciclo e seguimos em nossas rotinas, cada dia mais lentas, menos palavras e mais gestos, mecânicos, cansados, quase dolorosos. Em um lugar onde ter esperança é como uma oração que se desaprendeu a recitar. E o silêncio das ruas é o silêncio das almas que nos acorda antes do nascer do sol para contemplar que a vida lá fora segue, sem nós, mais limpa, mais luminosa, com mais liberdade, as águas dos rios e mares tomadas pouco a pouco por seus reais ocupantes, enquanto esticamos nossos olhos para as espumas brancas que não mais podemos tocar. E a dor que aperta na garganta é que bem sabemos onde reside nossa culpa, a arrogância desmedida de nós entendermos sós, transformadores, arrogantes, agressivos, mudando o mundo ao alcance de nossos dedos e sonhos. O que foi que fizemos? Em um único gesto fomos expulsos, trancafiados em pequenas celas ou pior, expusemos nossos vulneráveis a uma morte desconhecida pelo pecado de não sentir, de não ouvir os sons do mundo onde vivíamos. Então será assim? Seriamos tão inúteis a ponto de seguir tudo sem nossa pretensa intenção de ser? Mas e nossas criações, e as artes, a música, a pintura, as grandes construções, a ciência das descobertas? Não valeriam de nada? E toda poesia que conseguimos captar, em nossa breve passagem pelo mundo? Enquanto ergo meus olhos para pedir ao universo uma resposta, um bando de pássaros cruza o céu, onde as luzes alaranjadas do sol começam a surgir. Em silenciosa e inescapável poesia. Sem palavras ou imagens. Sem Teorias ou Justificativa. Que se basta sem nós. E que não há nenhum gesto humano que possa, minimamente, reproduzir a contento.