sexta-feira, 3 de abril de 2020

Em silêncio

Estamos em silêncio e a cada vez que um de nós se cala, uma atmosfera mais pesada de medo e insegurança se afirma, como uma densa névoa invadindo as esquinas onde ninguém mais passa. E por todo lado as janelas vão pouco a pouco se apagando e já ninguém mais vai à varanda. Mas a televisão permanece ligada, esperando a novela que não vai começar. E ainda restam dois ou três homens no bar a comentar o futebol do final da temporada e já não há mais vendedores de flores. Só os infinitos corredores das farmácias, com pessoas assustadas, desviantes, pálidas, virando o rosto quando se encontram, continuamente encolhendo os corpos e seguindo seu caminho, mal tocando as máquinas de cartão que as balconistas, sempre as mesmas mulheres sem máscaras e luvas, sem folgas ou perdão, tocando o sujo dinheiro das gentes nas filas e voltando para casa no mesmo ônibus, cada dia mais atrasado e vazio. E os mesmos moradores de rua, com os mesmos velhos jornais. E seus cães. E já são muitos os rostos que não vão mais ver o fim do ciclo e seguimos em nossas rotinas, cada dia mais lentas, menos palavras e mais gestos, mecânicos, cansados, quase dolorosos. Em um lugar onde ter esperança é como uma oração que se desaprendeu a recitar. E o silêncio das ruas é o silêncio das almas que nos acorda antes do nascer do sol para contemplar que a vida lá fora segue, sem nós, mais limpa, mais luminosa, com mais liberdade, as águas dos rios e mares tomadas pouco a pouco por seus reais ocupantes, enquanto esticamos nossos olhos para as espumas brancas que não mais podemos tocar. E a dor que aperta na garganta é que bem sabemos onde reside nossa culpa, a arrogância desmedida de nós entendermos sós, transformadores, arrogantes, agressivos, mudando o mundo ao alcance de nossos dedos e sonhos. O que foi que fizemos? Em um único gesto fomos expulsos, trancafiados em pequenas celas ou pior, expusemos nossos vulneráveis a uma morte desconhecida pelo pecado de não sentir, de não ouvir os sons do mundo onde vivíamos. Então será assim? Seriamos tão inúteis a ponto de seguir tudo sem nossa pretensa intenção de ser? Mas e nossas criações, e as artes, a música, a pintura, as grandes construções, a ciência das descobertas? Não valeriam de nada? E toda poesia que conseguimos captar, em nossa breve passagem pelo mundo? Enquanto ergo meus olhos para pedir ao universo uma resposta, um bando de pássaros cruza o céu, onde as luzes alaranjadas do sol começam a surgir. Em silenciosa e inescapável poesia. Sem palavras ou imagens. Sem Teorias ou Justificativa. Que se basta sem nós. E que não há nenhum gesto humano que possa, minimamente, reproduzir a contento.

Nenhum comentário:

Postar um comentário