quarta-feira, 27 de maio de 2020
Despedidas
Queria te deixar um abraço.Daqueles que a gente dava, no intervalo da vida.O oi sorridente dali,da beira do balcão, da janela da rua, do carro, dos encontros ocasionais naquela cidade do interior onde costumávamos ir. Queria te dizer que vai rolar o chopp,que a gente ainda vai se ver. Te chamar para vir aqui. Dizer que já é tempo de festa junina. Porque ontem fez frio e talvez esse ano a quadrilha seja ainda mais animada. Queria te mostrar as fotos das meninas.E te ver falar da tua menina também.. Pra gente se admirar..E rir da nossa própria idade, contemplando juntos a passagem do tempo.. Queria te dizer que teremos mais aquela festa, ou a benção do acaso para podermos nos encontrar.Infelizmente não há..Mais tempo.Encontros e acasos. Mais ainda há você E nós. Aqui dentro,nas memórias que cultivamos e há, nos risos,conversas, os instantes vividos. Porque afinal de contas é só sobre isso. Não é mesmo?Não sobre títulos, conquistas,sucesso, a política nas esquinas, o comentário geral do nosso cotidiano, a dimensão lógica da existência. Nunca foi sobre isso. Sempre foi de encontros, as mãos estendidas, o abraço que chega na hora certa, a ligação de bom dia.. O ser e estar... Sempre foi sobre estarmos juntos no sol..Esperando que o dia passe. Que a gente possa se reencontrar. Um dia. E iremos. Por hora seguimos daqui. Cada um de seu lado, percorrendo a estrada de vida e de eternidade que lhe cabe. Mas não, nunca foi sobre lógica. Sempre foi sobre amor.
Sobre amor (Para Pri)
sobre amor
Deve ter vindo das milhares de páginas que li um dia - tentando dar sentido à minha própria existência - a ideia de que o que torna a experiência humana mais intensa do que as dos demais seres vivos é a certeza da finitude. De fato, é justamente pela relação antagônica que estabelecemos com o tempo que vem a profundidade de nosso sentir e a relação que criamos com o universo. Sabemos de antemão, que iremos acabar. Por isso nossas paixões são tão profundas e nossas transcendências tão representativas. Somos feitos para não durar. Talvez por isso, criamos recursos para tentar apreender a passagem do tempo, tais como tecnologias, traquitanas, praticas. Também recorremos à linguagem e em dado momento, um de nós, provavelmente mais afeito ao universo imaterial de nosso vasto manancial de emoções, compreendeu que, de todas as experiências humanas, o amor era a que mais profundamente dialogaria com a ideia de eternidade.
Quando nos apaixonamos, quando nos deixamos afetar pelo outro,em qualquer instância, entendemos de um modo distinto a relação profunda do universo com a duração. No percurso até o outro, no exercício doloroso de desnudar-se em porções mais ou menos controladas de fragilidade, nesse irresistível espelho através do qual contemplamos a nós mesmos quando olhamos para o outro, está o que nos faz existir. Porque somos "com”. E que outra experiência poderia ser mais significativa do que a do sujeito que se apaixona? que cria vínculos? No amor ou na paixão, fragmentos e ritmos distintos de vieses peculiares da relação do homem com o tempo, reside a experiência de eternidade que nos atravessa por vezes. É justamente no amor que reside o viver para sempre. E se o amor é o elemento que une os fragmentos de tempo que compõem o que nos faz humanos a morte é a ruptura jamais pensada, experiência radical que interrompe o fixo do existir. Mas então, como sobreviver ao tempo e seu denso espectro de rupturas? A resposta é uma só. Amando, estando aberto para o encontro, o inadiável comunicar de dois universos, diante do medo, do caos e de nossas pequenas certezas, colocados um de frente para o outro, por um instante somos. Será, por fim, no espaço poético que só o amor consegue construí que dialogamos com a experiência humana, por tanto amem, mergulhem ,experimentem atravessar a morte enquanto desequilíbrio fazendo-nos em um indescritível instante, ousem ser eternos.
terça-feira, 26 de maio de 2020
Vazios
De provisórios e vazios vamos construindo nossos cotidianos, em meio à pandemia que avança, a cada semana somando mais uma casa decimal ao número de doentes e mortos. Nas cores esmaecidas da rotina viramos zumbis, resgatando pedaços de rostos, risos, memórias e afetos, tentando sobreviver. Somamos nossos dias aos hábitos que já não temos mais e colecionamos histórias de horror para a hora de dormir. O momento mais terrível não é quando a luz apaga e todos se calam. O silêncio mais frio, que gela a espinha, vem em plena luz do dia, quando abrimos nossos olhos e descobrimos que não estamos em um pesadelo, mas na incompreensível realidade que se estende infinitamente diante de nosso desespero. E ignoramos os corpos negros, furados à bala, nas esquinas. Que não contam nas estatísticas, normalmente feitas por mãos brancas, limpas, preservadas em salas acumuladas, sob paredes de cimentos, vidro, tijolos, quarentena. Aqui e ali, resistências, lágrimas e luta. Enquanto o botequim da esquina vai pouco a pouco retomando os copos molhados enfileirados diante do balcão. E aquele famoso diretor planeja o lançamento do novo filme. Nos. Cinemas. As lojas oferecem máscaras em promoção. E o Estado convoca um a uns seus melhores trabalhadores. Médicos. Enfermarias. Professores. A convocação é geral. Precisamos retomar a economia. Mas que matemática é essa que divide em mortos e vivos aqueles que irão sobreviver, que contabiliza valores ao bel prazer dos estatísticos, que acumulam prognósticos aterradores se não retomarmos a produção. De que produção falamos, senhores? Balas? Fuzis? Máscaras de oxigênio? Corpos? Enquanto isso as enfermarias seguem em silêncio, corredores frios atravessados pelos passos exauridos de mulheres de branco, luvas e máscaras que cortam fundo na pele, que já não conseguem mais chorar. Mães e pais e filhos seguem na fila de espera de internação e os jornais anunciam 1181 mortos, dentre os contáveis, número onde jovens negros executados em favelas não costumam figurar. Pandemia? Genocídio. Sistemático, constante e sobrevivente ao vírus. E enquanto os homens empunham armas, mulheres lidam com respiradores, cada dia mais escassos. E hoje é dia de “live” de quem? Se sobrevivermos ao vírus, certamente sucumbiremos ao marketing. Invadindo cada espaço da melancolia cotidiana, inspirando a conjugar o verbo resiliência. Mas o branding que não se mostra é a interminável fila de trabalhadores, sem máscaras, que seguem garantindo o isolamento alheio. Ficamos em casa não mais por apenas necessidade física, mas porque quase todos sabemos que já fazemos parte das estatísticas e morremos todos aos poucos, a cada cova que se abre, a cada máscara descartada, a cada enterro sem flores, sem sentinela, aos milhares de doentes não contabilizados, a tudo que morreu. Deveríamos morrer também a cada operação policial, a cada chute de coturno na porta, a cada cesta básica alvejada, enquanto muitos morrem de fome. Mas seguimos aqui, , doentes, confinados ou não, esperando o dia seguinte, sem trégua, sem salvação, buscando em um fragmento qualquer de pôr do sol a brusca salvação pela poesia. E sem saber quantos e como seremos, amanhã de manhã
quinta-feira, 14 de maio de 2020
14 de maio
Sessenta dias de quarentena. E sim, o número também me assusta. E já não lembro em que semana fui à rua, comprar um filtro na loja de ferragens. E da última vez que entrei na padaria ou no mercado. Sei que, toda vez que consigo observar as pessoas caminhando, quando vou à portaria, ainda me assusto, não com as máscaras, mas com seus olhares, onde medo e cansaço se misturam. Por aqui dias bons e ruins. Muita solidão e silêncio. Dias de sol também. E por vezes, risos e passinhos pela casa me salvam. Desejo de fugir. De desistir. De prosseguir. Tudo junto. Receitas infalíveis para tornar o dia melhor. Sobreviveremos? É a pergunta que me faço todos os dias. De que forma? Como? Em qual grau de dor e luto? Com quantos textos escritos? Aprenderei uma nova profissão? Terei chegado a alguma conclusão mirabolante sobre o universo e sobre mim mesma? Ou apenas aguardarei, sentada no chão de minha cela, que alguém abra a porta e me ajude a levantar? Nesses tempos a dança tem sido minha maior companheira e tudo que vem com ela, amigos, movimento, imagens capturadas no chão do quarto, esperança e alívio para dor. Vejo as primeiras fotos, ainda de março, e percebo o quanto eu tinha esperança de que tudo fosse passar rápido, acreditando que o período de quarentena não fosse me afetar. Mas é fato que, tanto tempo depois, na expectativa de mais alguns meses de reclusão, a luz do sol através da janela já não me basta. E as mortes acumuladas. E a desesperança. E o fato de que a estupidez humana não tem e nunca terá medida. E que há dias onde o sol não chega. Principalmente no outono, época que espero anualmente para capturar os dourados do mundo. Teremos um outro outono? Certamente. Mas quanto de nós restará para percebê-lo? Nesses dias de tentativa de produtivíssimo e de adivinhar um caminho, 12 anos depois de traçar uma rota, eu me pergunto: e se eu tivesse me perdido dede o início e empreendido a dolorosa viagem para aquilo que me move? A arte, a dança, o precipício ali diante dos olhos e a coragem de mergulhar? Sobrevivência. Tão real quanto a necessidade de respirar a cada dia e me reinventar, em medidas mais ou menos urgentes. Tantas quanto vejo ao meu redor, dos meus amigos e pessoas que amo. Todos estamos em alguma medida tentando sobreviver. Respirar e seguir em frente. Com pausas dolorosas. Lutos silenciosos. Choros contidos. Resistências e coragens diárias. Sei que as vezes a voz do outro não basta. Queremos o toque. Precisamos ouvir a nós mesmos? Tocar a nós mesmos? Inevitavelmente. Mas como se o burburinho midiático da crise humanitária que enfrentamos se soma à total insegurança sobre o futuro? Ainda não tenho respostas. Mas sei que, como parte dos meus processos, há um milagre pessoal que por vezes me acomete. Acordar cedo e contemplar o nascer do sol. Essa á benção inesperada com que as vezes o universo me brinda. E vocês? Quais são seus milagres cotidianos e como eles te salvam todos os dias?
terça-feira, 5 de maio de 2020
Das águas de abril
Abril passou como uma velha locomotiva, das que ainda há pouco podíamos ver nas cidades mineiras do interior do Brasil, lento e inexorável e carregando em si uma imensa quantidade de memórias. Enquanto a contaminação de covid-19 se alastra em cada rua, permeando de medo todos os minutos do relógio, seguimos tentando sobreviver ao caos, à troca de um Ministério da Saúde e, no apagar das luzes, à saída do Ministério da Justiça e a troca do comando da Polícia Federal, comandados pela tresloucada presidência da república. E se a situação pandêmica é avassaladora em qualquer país do mundo, em terras brasileiras ela se torna desesperadora pois, à ausência de testes, à superlotação dos hospitais e ao desacordo sobre manter ou suspender o isolamento, temos um chefe do Executivo que mantem a necropolítica de contar corpos, usando-os como sustentáculo de uma economia incipiente. Assim, por aqui situações como manifestantes nas ruas agredindo a imprensa, brigando pelo direito de estarem na rua expostos ao vírus não são uma piada de mau gosto, mas a prova de que caminhamos muito mal na construção de consciência política. E seguimos aquecidos enquanto mercado consumidor, marketing e publicidade trabalhando juntos para alcançar o público que tem o privilégio de estar recolhido às suas casas, reinventando brandings, estratégias e design e já há marcas cuja mensagem está centrada em tentar alcançar aqueles que conseguiram o auxílio emergencial de 600 reais, enviado à duras penas para complementar a renda de milhares de famílias durante a pandemia. Vendo tais práticas e a enorme quantidade de pessoas obrigadas a saírem de casa todos os dias, não é difícil imaginar porque lidamos hoje com o covid-19 e porque a Terra parece respirar aliviada pela ausência de humanos em seu ambiente. Comparados, somos muito piores e mais letais. Contudo, à toda regra há a exceção e ainda há filas fortalecidas em combate, de corpos majoritariamente femininos. Médicas e enfermeiras mantendo o trabalho diário de tratamento de pacientes, mesmo sem condições adequadas de trabalho, mesmo vendo suas companheiras tombarem. E começam a noticiar os primeiros suicídios, quebrando o tabu – um dos poucos de que se tem notícia – de silenciar quem tira sua própria vida. E já há quem afirme que não sairemos dessa. E sim, não sairemos. Pele, ossos, carne e emoções restam ali, presos aos últimos dias anteriores ao primeiro pico de covid-19, quando podíamos ir e vir debaixo de sol e chuva e as pequenas e grandes desigualdades do cotidiano não nos atingiam além do limite do noticiário, do tempo do feijão no fogo, de nossos compromissos diários, da dor e da perda, quase sempre relegadas ao segundo plano dos dias normais. Agora a morte se avizinha cada vez mais e nos segue como uma sombra, nas sacolas de mercado, nas caixas de remédio, no toque ao acaso entre corpos, nos olhos por trás das máscaras enquanto seguimos nas tarefas cada vez mais longas e extenuantes. Enquanto isso, caixas de supermercado são obrigadas a trabalhar sem máscara, moradores de rua admiram a passagem de mascarados pelas esquinas, sem proteção ou auxílio além do gesto individual e prosseguimos na imposição das aulas online enquanto a muitos falta a água e o pão. Seguimos na constante vigilância do surto alheio, seja por vender uma normalidade que não existe mais, seja pela intensidade do desespero de todos nós. E desaprendemos todos os dias a chorar os nossos mortos. Mas seguimos, quase todos, conservando em um lugar defeso aos olhos alheios, um componente de esperança, para uma cura que - hoje já se sabe - não há precisão de data ou modo. Só o que persiste é a arte, ousando atravessar os muros, postar-se no meio da praça e desafiar a morte, propor um tipo agora distinto de silêncio e sonho e nos fazendo, nos raros fragmentos de execução de uma música, peça, dança ou filme, novamente companheiros de humanidade.
#covid19 #quarentena #coronavirus
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