quarta-feira, 27 de maio de 2020
Sobre amor (Para Pri)
sobre amor
Deve ter vindo das milhares de páginas que li um dia - tentando dar sentido à minha própria existência - a ideia de que o que torna a experiência humana mais intensa do que as dos demais seres vivos é a certeza da finitude. De fato, é justamente pela relação antagônica que estabelecemos com o tempo que vem a profundidade de nosso sentir e a relação que criamos com o universo. Sabemos de antemão, que iremos acabar. Por isso nossas paixões são tão profundas e nossas transcendências tão representativas. Somos feitos para não durar. Talvez por isso, criamos recursos para tentar apreender a passagem do tempo, tais como tecnologias, traquitanas, praticas. Também recorremos à linguagem e em dado momento, um de nós, provavelmente mais afeito ao universo imaterial de nosso vasto manancial de emoções, compreendeu que, de todas as experiências humanas, o amor era a que mais profundamente dialogaria com a ideia de eternidade.
Quando nos apaixonamos, quando nos deixamos afetar pelo outro,em qualquer instância, entendemos de um modo distinto a relação profunda do universo com a duração. No percurso até o outro, no exercício doloroso de desnudar-se em porções mais ou menos controladas de fragilidade, nesse irresistível espelho através do qual contemplamos a nós mesmos quando olhamos para o outro, está o que nos faz existir. Porque somos "com”. E que outra experiência poderia ser mais significativa do que a do sujeito que se apaixona? que cria vínculos? No amor ou na paixão, fragmentos e ritmos distintos de vieses peculiares da relação do homem com o tempo, reside a experiência de eternidade que nos atravessa por vezes. É justamente no amor que reside o viver para sempre. E se o amor é o elemento que une os fragmentos de tempo que compõem o que nos faz humanos a morte é a ruptura jamais pensada, experiência radical que interrompe o fixo do existir. Mas então, como sobreviver ao tempo e seu denso espectro de rupturas? A resposta é uma só. Amando, estando aberto para o encontro, o inadiável comunicar de dois universos, diante do medo, do caos e de nossas pequenas certezas, colocados um de frente para o outro, por um instante somos. Será, por fim, no espaço poético que só o amor consegue construí que dialogamos com a experiência humana, por tanto amem, mergulhem ,experimentem atravessar a morte enquanto desequilíbrio fazendo-nos em um indescritível instante, ousem ser eternos.
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