terça-feira, 5 de maio de 2020

Das águas de abril

Abril passou como uma velha locomotiva, das que ainda há pouco podíamos ver nas cidades mineiras do interior do Brasil, lento e inexorável e carregando em si uma imensa quantidade de memórias. Enquanto a contaminação de covid-19 se alastra em cada rua, permeando de medo todos os minutos do relógio, seguimos tentando sobreviver ao caos, à troca de um Ministério da Saúde e, no apagar das luzes, à saída do Ministério da Justiça e a troca do comando da Polícia Federal, comandados pela tresloucada presidência da república. E se a situação pandêmica é avassaladora em qualquer país do mundo, em terras brasileiras ela se torna desesperadora pois, à ausência de testes, à superlotação dos hospitais e ao desacordo sobre manter ou suspender o isolamento, temos um chefe do Executivo que mantem a necropolítica de contar corpos, usando-os como sustentáculo de uma economia incipiente. Assim, por aqui situações como manifestantes nas ruas agredindo a imprensa, brigando pelo direito de estarem na rua expostos ao vírus não são uma piada de mau gosto, mas a prova de que caminhamos muito mal na construção de consciência política. E seguimos aquecidos enquanto mercado consumidor, marketing e publicidade trabalhando juntos para alcançar o público que tem o privilégio de estar recolhido às suas casas, reinventando brandings, estratégias e design e já há marcas cuja mensagem está centrada em tentar alcançar aqueles que conseguiram o auxílio emergencial de 600 reais, enviado à duras penas para complementar a renda de milhares de famílias durante a pandemia. Vendo tais práticas e a enorme quantidade de pessoas obrigadas a saírem de casa todos os dias, não é difícil imaginar porque lidamos hoje com o covid-19 e porque a Terra parece respirar aliviada pela ausência de humanos em seu ambiente. Comparados, somos muito piores e mais letais. Contudo, à toda regra há a exceção e ainda há filas fortalecidas em combate, de corpos majoritariamente femininos. Médicas e enfermeiras mantendo o trabalho diário de tratamento de pacientes, mesmo sem condições adequadas de trabalho, mesmo vendo suas companheiras tombarem. E começam a noticiar os primeiros suicídios, quebrando o tabu – um dos poucos de que se tem notícia – de silenciar quem tira sua própria vida. E já há quem afirme que não sairemos dessa. E sim, não sairemos. Pele, ossos, carne e emoções restam ali, presos aos últimos dias anteriores ao primeiro pico de covid-19, quando podíamos ir e vir debaixo de sol e chuva e as pequenas e grandes desigualdades do cotidiano não nos atingiam além do limite do noticiário, do tempo do feijão no fogo, de nossos compromissos diários, da dor e da perda, quase sempre relegadas ao segundo plano dos dias normais. Agora a morte se avizinha cada vez mais e nos segue como uma sombra, nas sacolas de mercado, nas caixas de remédio, no toque ao acaso entre corpos, nos olhos por trás das máscaras enquanto seguimos nas tarefas cada vez mais longas e extenuantes. Enquanto isso, caixas de supermercado são obrigadas a trabalhar sem máscara, moradores de rua admiram a passagem de mascarados pelas esquinas, sem proteção ou auxílio além do gesto individual e prosseguimos na imposição das aulas online enquanto a muitos falta a água e o pão. Seguimos na constante vigilância do surto alheio, seja por vender uma normalidade que não existe mais, seja pela intensidade do desespero de todos nós. E desaprendemos todos os dias a chorar os nossos mortos. Mas seguimos, quase todos, conservando em um lugar defeso aos olhos alheios, um componente de esperança, para uma cura que - hoje já se sabe - não há precisão de data ou modo. Só o que persiste é a arte, ousando atravessar os muros, postar-se no meio da praça e desafiar a morte, propor um tipo agora distinto de silêncio e sonho e nos fazendo, nos raros fragmentos de execução de uma música, peça, dança ou filme, novamente companheiros de humanidade. #covid19 #quarentena #coronavirus

Nenhum comentário:

Postar um comentário