Sessenta dias de quarentena. E sim, o número também me assusta. E já não lembro em que semana fui à rua, comprar um filtro na loja de ferragens. E da última vez que entrei na padaria ou no mercado. Sei que, toda vez que consigo observar as pessoas caminhando, quando vou à portaria, ainda me assusto, não com as máscaras, mas com seus olhares, onde medo e cansaço se misturam. Por aqui dias bons e ruins. Muita solidão e silêncio. Dias de sol também. E por vezes, risos e passinhos pela casa me salvam. Desejo de fugir. De desistir. De prosseguir. Tudo junto. Receitas infalíveis para tornar o dia melhor. Sobreviveremos? É a pergunta que me faço todos os dias. De que forma? Como? Em qual grau de dor e luto? Com quantos textos escritos? Aprenderei uma nova profissão? Terei chegado a alguma conclusão mirabolante sobre o universo e sobre mim mesma? Ou apenas aguardarei, sentada no chão de minha cela, que alguém abra a porta e me ajude a levantar? Nesses tempos a dança tem sido minha maior companheira e tudo que vem com ela, amigos, movimento, imagens capturadas no chão do quarto, esperança e alívio para dor. Vejo as primeiras fotos, ainda de março, e percebo o quanto eu tinha esperança de que tudo fosse passar rápido, acreditando que o período de quarentena não fosse me afetar. Mas é fato que, tanto tempo depois, na expectativa de mais alguns meses de reclusão, a luz do sol através da janela já não me basta. E as mortes acumuladas. E a desesperança. E o fato de que a estupidez humana não tem e nunca terá medida. E que há dias onde o sol não chega. Principalmente no outono, época que espero anualmente para capturar os dourados do mundo. Teremos um outro outono? Certamente. Mas quanto de nós restará para percebê-lo? Nesses dias de tentativa de produtivíssimo e de adivinhar um caminho, 12 anos depois de traçar uma rota, eu me pergunto: e se eu tivesse me perdido dede o início e empreendido a dolorosa viagem para aquilo que me move? A arte, a dança, o precipício ali diante dos olhos e a coragem de mergulhar? Sobrevivência. Tão real quanto a necessidade de respirar a cada dia e me reinventar, em medidas mais ou menos urgentes. Tantas quanto vejo ao meu redor, dos meus amigos e pessoas que amo. Todos estamos em alguma medida tentando sobreviver. Respirar e seguir em frente. Com pausas dolorosas. Lutos silenciosos. Choros contidos. Resistências e coragens diárias. Sei que as vezes a voz do outro não basta. Queremos o toque. Precisamos ouvir a nós mesmos? Tocar a nós mesmos? Inevitavelmente. Mas como se o burburinho midiático da crise humanitária que enfrentamos se soma à total insegurança sobre o futuro? Ainda não tenho respostas. Mas sei que, como parte dos meus processos, há um milagre pessoal que por vezes me acomete. Acordar cedo e contemplar o nascer do sol. Essa á benção inesperada com que as vezes o universo me brinda. E vocês? Quais são seus milagres cotidianos e como eles te salvam todos os dias?
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