sábado, 8 de agosto de 2020

Diário de quarentena. Tantos meses que já não sei mais o que é um calendário

Diário de quarentena. Tantos meses que já não sei mais o que é um calendário Esqueça o que te disseram sobre resiliência. Em tempos de pandemia, não é a rígida rotina de exercícios, a dieta equilibrada, a organização do caos em meio ao privilégio de estar protegido entre quatro paredes. Não é em absoluto a vasta pilha de tarefas realizadas com perfeição. O que nos segura com os pés no chão – o chão que nos resta - enquanto o mundo vira de cabeça para baixo é o afeto compartilhado de todos os dias. Os abraços que sonhamos em dar, as palavras que ouvimos no intervalo da rotina, os rostos que conseguimos ver sorrir, os pedacinhos de felicidade que conseguimos conservar, os corpos que se encontram e acolhem no meio da noite. As vozes que ainda ouvimos. O reservatório de afeto que conservamos junto ao peito nesses tempos, para podermos continuar a respirar. Esqueça o que te disseram sobre manter sua rotina de trabalho. Não. Há. Rotina. Na. Pandemia. A cada dia centenas de pessoas – não apenas pessoas - mas amigos, maridos, irmãos, mães, cunhadas, avós - se vão. Por causa ou apesar do vírus. Porque à contaminação do corpo, sempre há a da alma e já são muitos os que se vão também, atravessados pela irremediável atmosfera de tristeza e desânimo que nos acomete. E seus sonhos, energias, histórias e afetos pairam no ar, como uma nota dissonante que ressoa nas paredes vazias, bruma úmida que arrepia a pele, quando o sol ainda não chegou. Por todo lado há ecos de encontros que não vão mais acontecer, abraços que só moram agora na memória, cheiros que entranharam nos quartos, nos lençóis, na roupa acumulada na área, naquele café em cima da mesa. Há fotos que foram guardadas em gavetas, para não doer tanto e para a vida seguir. E de fato seguimos, mais ou menos quebrados, acordando sob o medo diário de sintomas, de loucura ou de covid, agradecendo a sorte de mais um nascer do sol, conferindo os deveres, espichando os ouvidos para sentir, nas paredes vizinhas um fragmento de vida que traga um tanto de normalidade às horas. Esqueça o que te disseram sobre a pandemia. Resistimos nos instantes roubados, mãos, beijos, pele, todo contato humano ainda remanescente. Não são nossas produções, os livros que lemos, competências e habilidades aprendidas, os filmes, a intensa produtividade partilhada em obrigações. Não são os títulos, os cursos, a insana necessidade corporativa de ainda ser e estar, a teimosia em se agarrar ao que éramos antes, como se ainda fôssemos. Não somos. Mais. Somos ao contrário 700 mil histórias interrompidas, vidas que queriam continuar, não para o trabalho, a rotina, os títulos. Mas para somente mais um instante de afeto, para sentir mãos e braços, pernas e vozes, para os cheiros e texturas do encontro. Para a vida que não se pode mensurar. E que faz tanto sentido dentro do peito. E que nos faz humanos. Ainda. Para isso estamos aqui. Sobrevivemos e nos levantamos todos os dias para o beijo, os abraços, a música que ainda conseguimos escutar juntos, o absoluto privilégio de ter o coração ainda aberto pelo amor, resistindo em meio ao caos, benção divina que protege corpo e alma, oração compartilhada em dias e dias de reclusão. Tal foi a tarefa impingida pelo Universo, se é que ainda nos ouve e considera parte do Todo. Amor, irremediável e inútil para o mercado e os selfs, fora de moda e cotidiano.Ainda e sempre real No instante do recomeço, acreditem, todas as nossas tarefas realizadas restarão sobre a mesa, diminutas diante da imensidão dos reencontros. Esqueçam o que te disseram sobre o que fizemos. Sobre as profundas análises sociopolíticas, de todos os filósofos que ousarem compreender o período que vivemos. Quando olharmos para trás, se tivermos a sorte de estarmos lá – no que ainda vai ser - será o amor a única resposta para quando nos perguntarmos como foi que sobrevivemos. #quarentena #covid19 #pandemia #quarenteners #covid #coronavirus

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