segunda-feira, 31 de agosto de 2020
sobre silêncios
Diário de Quarentena.Um domingo qualquer
Uma das coisas de que mais vou me lembrar se tiver a sorte de sobreviver à pandemia é do silêncio.Não falo do intervalo entre sons, tão comum à vida de todos os dias. Me refiro ao silêncio que vem de dentro do peito,que atravessa os ossos e que te alcança independente de onde esteja. Seja numa praia lotada - inacreditavelmente cada vez mais frequente nesses tempos - ou em uma casa vazia, desses corredores cada vez mais frios da vida de todos nós, seja qual for o momento. De repente diante de um magnifico céu azul de domingo, por maior que seja o calor,há sempre um vento frio que te alcança e faz chegar o silêncio que congela o sorriso, paralisa as conversas, doi na alma. E é de silêncios que seguimos, na toada de sobrevivências que nos cabe, mais ou menos adoentados que estamos todos, física e psicologicamente.Nos longos meses que se seguem, a felicidade é um produto em constante promoção, assim como resiliência e auto cuidado.. todos são exibidos constantemente nas prateleiras virtuais de nossas redes, disfarçados sob a etiqueta de "novo normal". Mas como é possível haver normalidade depois de 180 dias de incertezas, dores e caos? e isso se tivemos sorte. seguimos aqui, estupidamente tentando não ceder ao espanto, a inercia e a tristeza, reinventando-nos todos os dias, sobrevivendo sempre que possível. E as vezes simplesmente não é possível. Por vezes a dor e a raiva exacerbam, ante a impotência de ser e estar. Mas ainda cabe um instante em que temos esperança.Até lermos o noticiário.Que nos alcança.avança pelas janelas, atravessa muros, se insinua pelas frestas das portas. E então tudo parece mais cinza e cada um dos mortos se soma aos dias de quarentena. Até quando?É a pergunta que não ousamos mais dizer. E qualquer plano para depois da pandemia parece esvanecer diante dos ponteiros do relógio.Sobrevivemos,quase todos,mais por teimosia do que por convicção. E já há aqui e ali focos de resistência de gente que insiste em não somente sobreviver e produzir,mas viver,intensa e afetivamente, como em desafio. Aqui e ali vemos um outro sorriso em um instante fugidio, onde parecemos voltar a vida e respirar, profundamente. E já há pés que correm em direção a águas e verde, grama e areia misturadas em imagens que ousam mostrar que ainda temos saída. Em tempos de confinamento, a felicidade é um desafio, enfrentamento a morte, mãos dadas furtivamente.Porque uma coisa que não se pode negar é que, inevitavelmente, ainda mantemos em algum lugar a fé de um depois. E seguimos ávidos de amor e sorrisos .Enquanto outro silêncio não vem.
#covid19 #quarenteners #quarentena #pandemia
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