domingo, 29 de março de 2020
Alma encantadora das ruas
Ah!eu amo a rua, com seus fluxos constantes de corpos, cores e sons, quase sempre em conflito, misturando-se ao movimento dos carros, das luzes e sombras que cortam o asfalto das praças, o cimento dos prédios e o coração das gentes. Como é possível não ver o outono chegar ou observá-lo de longe, sem misturar meu corpo aos tons de dourado desses três meses de poesia visual, que me atravessa, sempre me atravessou, criando novas e irresistíveis metáforas de cores e versos? Como posso não sentir nos ossos o desespero de não viver essa cidade e percorrer suas esquinas, quando as melodias do verão cessam de soar e de repente faz-se uma pausa no peito da gente, para plantar novamente um outro ano? De repente, não há mais canções, mais flores, apenas um silêncio dolorido, de pranto que se retém, de mãos que se enroscam no colo, de olhares que se perdem nas janelas, olhando para fora. Aqui e ali, já é possível entreouvir as orações, velas e joelhos unidos, repetindo velhas simpatias, pedindo pelos seus. Famílias, amigos, conhecidos, vizinhos, o idioma é uma só saudade de ser, de mãos dadas, abraços que se apertam, sorriso e sonhos. Da minha janela, a saudade da rua me parte ao meio, do reflexo do sol na água, do frio da areia nos pés, dos infinitos tons de dourado desse tempo que sempre fui. E no meio do silêncio, o medo intenso, cotidiano, de não mais poder percorrer essa cidade, de não ver o samba, o jazz, a bossa nas esquinas, de adentrar as galerias, caminhando sem cessar pelo caos urbano do centro do Rio, me perdendo e me achando dentro de mim, com profunda esperança dentro do peito, de me apaixonar pela vida e por tudo que ainda pode ser. Na rua eu me descubro em novas cores, me refaço e me misturo ao caleidoscópio de sentidos, de imagens e sons que fazem parte do que eu sou. Súbito fecho os meus olhos e estou exatamente ali, de frente para os arcos da lapa, vendo os carros passarem, a música, os corpos, a imensa liberdade de ser coletivo. Mais uns passos e já estamos no circo voador, no lavradio, nos sambas que se misturam e que convocam meu corpo a dancar. Abro os olhos e a dor é quase insuportável, porque é como se cada nota ressoasse na pele, cortando, latejando de vontade de sair, de ir, de não restar aqui, na janela do quarto, enquanto a noite cai e o outono caminha mais um dia para longe da dor e do medo. Enquanto todos restamos aqui. Até quando?
quinta-feira, 26 de março de 2020
Enquanto o sol nasce
Hoje a angústia e o peso das recentes notícias me acordaram antes do sol. Como se os novos números de contaminados e mortes pesassem sobre meus ombros, impedindo o corpo de relaxar.É angustiante não poder fazer nada,ou quase nada, além de repetir aos incrédulos,que precisamos ficar em casa. Mais do que isso.É terrível ter os braços cruzados e as pernas presas enquanto os protagonistas do embate entre Estado e empresários se degladiam para decidir quantos sobrevivem ou são sacrificados em benefício da economia, como um jogo de xadrez macabro.E se o governo federal declara que o isolamento total é um erro, apoiado pelo empresariado em fúria pela perda de dinheiro e investimentos e por uma parcela cada vez maior de pessoas para quem o isolamento é uma tortura, as notícias denotam que a chegada do vírus às casas é apenas uma questão de tempo. Triste é pensar que estar em casa é uma opção impossível para grande parte da população .Assim, ainda restam muitos trabalhadores sem poder proteger-se do #coronavirus, convivendo com a insegurança de todos os dias, ao não saberem se levam pra casa o vírus que pode contaminar sua família. Hoje saem números sobre a situação no Rio de Janeiro e, contrariando todas as expectativas, a grande maioria dos doentes tem entre 30 e 39 anos, não por acaso, uma faixa economicamente ativa de pessoas que circulam por aí ainda, por escolha própria ou dos patrões. A cada segundo,os números da curva de crescimento do vírus ao longo do país começa a ganhar contornos, rostos,histórias, parentes e amigos que lamentam as mortes e tentam entender como é possível que ainda não estejamos falando de isolamento total. Ao contrário. Em meio ao crescimento vertiginoso dos casos, inacreditavelmente já são muitas as vozes que se somam a do presidente, conclamando pessoas a voltarem à vida normal.Seria ótimo, não fosse o fato de que não temos testes para todos e os assintomáticos contaminam indiscriminadamente todos aqueles com quem tiverem contato. Enquanto isso, modelos de negócios para aulas, serviços, e informações pululam na rede e outros modos de vida,contato e trabalho entram em ação,além do marketing direcionado a quem pode ficar em casa,por medo ou escolha. Do lado de fora, a vida passa entre ruas desertas e o distanciamento social também impede que vejamos através das janelas abertas os muros que separam o dentro e o fora das cidades. Para todo desânimo e ansiedade, a imagem da luz do sol atravessando as nuvens me dá uma paz desmedida e alguma esperança para pensar que,apesar da incerteza, sobreviveremos,de algum modo.
fonte: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/maioria-dos-contaminados-por-coronavirus-no-rj-tem-de-30-a-39-anos/?fbclid=IwAR2GyTqeIZGCCAmYXEKIHLZ-wPbUPFLd1mNh7MYbCuppO5cKc874vqDuhMg
quarta-feira, 25 de março de 2020
O ponto fora da curva (do gráfico e da vida)
Enquanto tentamos digerir o último pronunciamento presidencial, minimizando os riscos de contaminação com o #Coronavirus e inacreditavelmente conclamando a população a sair às ruas em vida normal, recebemos a notícia dos primeiros números de casos em favelas cariocas. Em podcasts, textos, imagens, a população sem saneamento, água, espaço ou demais itens básicos de sobrevivência tenta explicar o óbvio a jornalistas que, em ritmos de trabalho quase tão insanos quanto os dos profissionais de saúde, tentam convencer a opinião pública de que não dá pra pensar em contenção de contágio sem pensar na faixa da população em situação de risco, desassistida pelos serviços mais básicos de vida. Em um deles, o entrevistado, um morador de seus 50 anos, dá um argumento cabal para a dificuldade de isolar os doentes :"só temos um cômodo na casa", explica o senhor. Enquanto isso academias de ginástica, cursos,faculdades e demais serviços organizam-se para produzir conteúdo e manter seus clientes,pacientes e que tais entretidos e em movimento. As narrativas sobre o #coronavirus alastram-se com velocidade quase tão grande quanto o próprio vírus e já multiplicam-se em rádios, podcasts,boletins e vídeos de muitas horas sobre contaminação, riscos, número de infectados e mortes. Também já há especialistas debruçando-se sobre os números da economia para pensar nos efeitos devastadores da paralização mundial (o tal lockdown) sobre empregos, produção e fluxos de pessoas e bens. O que não se fala,ou pouco se fala é das consequências humanas do isolamento, das práticas genocidas de Estados e instituições, para além de todas as mazelas do distanciamento social e da ansiedade causada pela espera por um pico de contágio em situações para lá de desfavoráveis em muitos cantos do Globo.E enquanto artistas, blogueiras e demais influenciadores digitais seguem pedindo que seus seguidores permaneçam em casa, transportes públicos, portarias, cabines de segurança, e etc. continuam a ser ocupados por cidadãos que não tem como opção a quarentena. E seguimos acompanhando com mórbido interesse o crescimento do número de mortos e contaminados em cada cidade e estudando comportamentos ao longo do mundo, como se em cada ponto do gráfico de contaminação estivesse a chave para nossa salvação . Por maior que seja a exatidão técnica, um gráfico jamais dará conta da enorme quantidade de histórias que circulam, à revelia ou por meio da pandemia, dos rostos assustados das pessoa ao cruzarem umas com as outras nos corredores das farmácias, dos amigos que insanamente decidiram permanecerem juntos no bar em uma rua de subúrbio, dos casais e famílias que criam infinitas formas de estarem juntos em plataformas mundo afora. Nem tão pouco do medo de quem recebe todas as informações sobre contágio, isolamento ,mas é invisibilizado pelos relatórios e previsões do Estado, principalmente o brasileiro. São o ponto fora da curva das previsões de estatísticas, mas representam 16 milhões de pessoas na linha de frente de discursos genocidas e irresponsáveis, como os do presidente.Deus nos proteja.
Apologia ao genocídio em cadeia nacional
Após o pronunciamento mais desastroso de sua carreira pública, Jair Bolsonaro pode ser vítima da máquina de "guerra" ideológica que ele mesmo criou. Utilizando-se de "cortinas de fumaça" informativas divulgando mentiras ao longo da campanha eleitoral de 2018 e durante seu governo, o presidente ignora o poder dos fluxos de fake news dos quais fez uso em larga escala e demonstra, na fala irresponsável sobre a gravidade do COVID-19, total desconhecimento sobre seu papel na República, além de um descaso abissal com a vida dos seus governados, contrariando a recomendação da maior autoridade em saúde do planeta, a OMS,além das determinações de todos os líderes mundiais. Agora, resta a seus apoiadores refletirem sobre os limites da crença nas intenções do mandatário, diante de um cada vez maior bombardeio de informações sobre as mortes, contaminação e medidas de emergência, não somente pela imprensa, mas de todos os lugares, grupos de Whats App familiares entre eles.E agora, José? - devem pensar seus eleitores, se o mesmo sistema que legitimou todas as ações de governo até agora falha, em quem acreditar?Infelizmente não faltarão motivos para que se venha a desmentir Bolsonaro. A curva de contaminação cresce a cada dia e a desastrosa fala do presidente não conseguirá,por mais queira, refutar os assustadores números da pandemia. Resta saber agora o que fazer com Bolsonaro. Incapaz de governar um pais continental que aguarda uma situação de emergência sem precedentes, a quem caberá apontar-lhe a porta de saída?Não importa o nome, desde que seja urgente.
terça-feira, 24 de março de 2020
Um feriado interminável
A cada dia tenho a sensação de que vivemos um loop contínuo, do calendário às notícias, como se o ciclo das informações fosse gerando as mesmas sensações de medo, ansiedade e espera, renovadas a cada 24 horas, tempo que se dilui ao longo do dia, seja nas declarações do Estado, na falta de perspectiva sobre o fim da crise ou do quanto a situação pode piorar. Sempre pode. Enquanto lemos as notícias falarem sobre o corte de salários a trabalhadores, o COVID-19 atinge a Cidade de Deus e outras favelas cariocas, sem que os governos estaduais ou federais movam uma palha para proteger quem quer que seja. O corre é geral, enquanto instituições, bancos, governantes, tentam apagar o incêndio financeiro, sem perceber que queimam junto com a mobília. Nada está no lugar e não há previsão de melhora. Não a curto prazo. Enquanto se tenta pensar em como conter a crescente histeria e os confinados criam diariamente formas de vida indoor, há quem seja obrigado a trabalhar e meio ao continuo bloqueio de vias, transportes e serviços. Portas que se fecham para quem sabe abrir um dia, como um feriado interminável de carnaval, esperando um bloco que nunca vai passar e onde a música já parou já tempos. E é no meio desses constantes intervalos de silencio em que pensamos: como será o depois? Quando virá? Quantos morrerão e como? Teremos comida e água? Seremos todos contaminados ou a mais constante? Sobreviveremos? Essas perguntas não estão na fala das pessoas, mas atravessam a imposição do cotidiano que a quarentena nos dá, enquanto sofremos a esquizofrenia de tentar viver uma normalidade há muito perdida. E enquanto há um genocídio em marcha de famílias inteiras em áreas pobres e trabalhadores informais. Enquanto o café das reuniões intermináveis de governos esfria e a imprensa espera do lado de fora, enquanto os profissionais de saúde vão resistindo, sem proteção ou ajuda, o dia seguinte é um universo desconhecido. Aqui e ali famílias que antes encontravam-se apenas nas redes sociais, são obrigadas a compartilhar o mesmo espaço de ansiedade de espera e os conflitos aumentam a cada dia no mesmo passo que empresas e marcas já pensam como fazer para manter a economia funcionando. Talvez fosse necessário lembrar que a palavra economia vem de oikonomos, casa, espaço construído por afeto, plantado todos os dias em cuidado e proteção sim, perdemos a ideia de casa que tínhamos, fluxos de informação e valores, em um mundo cada vez mais conectado, onde as redes produtivas por vezes interrompem e atravessam as de solidariedade. E a vida segue. Da ideia de aldeia global, perversa porque superficial, diante das mazelas que a globalização traz, ou de uma imensa moradia onde as coisas estavam mais ou menos organizadas e as pequenas ou grandes perversidades humanas mantinham-se sob a superfície. Agora que dependemos uns dos outros em uma nova configuração comunal ainda mais orgânica, porque desta depende a vida de cada um de nós. Mas como passamos tanto tempo acreditando que seriam apenas os nossos atos a escolher nosso destino, sofremos a dor de não ter o controle e não saber o final da estrada, como se em algum momento soubéssemos. O posicionamento dos cientistas é unânime ao indeterminar o prazo de fim da pandemia, se é que teremos. Mas no fundo o que o Corona Vírus nos trouxe foi o que sempre esteve aqui: a certeza do descontrole e o medo da finitude, onde é sempre urgente abraçar quem amamos, ver os amigos, dizer eu te amo e contemplar o pôr do sol, para além de produzir a vida de todos os dias. Por medo da incerteza colocamos o sobreviver na frente do viver e hoje infelizmente temos tempo demais para pensar nos não feitos. Ainda assim, chegar na janela e ver o céu se tornar cada vez mais escuro, as nuvens pesadas atrás da monta e o silêncio que se faz em cada esquina - onde nem mesmo a novela serve para aplacar a dor de existir - não me faz desejar menos o sol ainda que seja o último. Porque sempre poderia ser. Ao contrário. A saudade da rua, do caminhar sem direção, a sensação dos abraços que ainda não demos, das imagens e histórias que ainda temos a contar, me parece ser o componente que ainda nos mantem em pé.
segunda-feira, 23 de março de 2020
Semana 2- A dura realidade da espera
Em menos de uma semana os casos de Corona Virus, o temível COVID-19 começam a tomar a aumentar de forma representativa na imprensa. E as pressões para a ação do governo em relação a empresas e trabalhadores não impede a proposta de cortar salário de empregados impedidos de trabalhar.Aqui e ali alguns poucos optam pelo Home Office enquanto a massa de trabalhadores enfrenta a diminuição dos transportes, a precariedade dos recursos e, inevitavelmente, a exposição ao vírus. Enquanto o governo Federal e Estadual se degladiam, seguimos tentando mudar nossos hábitos para modo virtual, dos que podem estar nesse modo. Nesse cenário, em que uma parcela da população tenta não enlouquece de tédio, ansiedade e isolamento social, a outra parte,ainda maior, habita moradias sem a menor chance contra o vírus e, para tornar mais grave, sem ação efetiva do Estado em contrário. Mais rápida do que a contaminação pelo Covid-19 somente a certeza de que há um genocídio em marcha e não podemos ocupar as ruas para impedi-la.Enquanto profissionais de saúde, caixas de supermercados e farmácia mantem-se na linha de frente do risco, agências de publicidade e profissionais de marketing se perguntam o que será das marcas e como alcançar o público em tempo de crise.Vejo pelas mensagens dos meus amigos da timeline que todos esperam uma explosão. De casos, de nervos, de falta de esperança.O que irá acontecer se não olharmos para a população vulnerável ? Quantas mortes pesarão sobre nós?Enquanto isso o governador barra a entrada e saída do Estado fluminense, mas o presidente da república mantém o espaço aéreo aberto se já se fala em preservar 50% das vidas. Pela fala do ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, a semana que começa é crucial para evitar a maior contaminação das pessoas. Enquanto isso, o presidente segue diminuindo a importância da pandemia. Enquanto leio as notícias, tentando não entrar em pânico, vejo pelo olhar das pessoas, printadas nas telas dos celulares das redes sociais mundo afora, que estamos todos no limite. Famílias confinadas em espaços, exíguos ou não, aguardam ansiosamente o desfecho desse inacreditável episódio de Black Mirror, sem saber quem sobreviverá no final. E seguimos sem abraço, contato, risos, para ao menos diminuir o impacto do meteoro.
O longo outono
Dos livros que fizeram minha infância mais feliz e silenciosa, a série norte americana sobre Laura Ingalls acompanhou grande parte dos meus dias, com sua narrativa sobre uma família pioneira, que atravessa os Estados do Winsconsin até Iowa (cerca de 323 milhas) a bordo de uma carroça de madeira. No sexto livro a autora relata uma grande nevasca que atinge o povoado onde Laura e sua família viviam, bloqueando os trens e interrompendo o abastecimento de comida de famílias inteiras, que ficam à beira da inanição por sete meses. Em dado momento, nos últimos dias antes de finalmente conseguirem desbloquear o trecho de teoria e fazer os trens passarem, a autora pontua os últimos dias com o que restava dos suprimentos, uma farinha escura suficiente para fazer um biscoito para cada um dos membros da família e nada mais. Nesses dias de quarentena, em que a insegurança e o medo dominam nosso imaginário, uma imagem, construída por mim a partir da leitura, vem continuamente a cabeça: após o longo inverno a família de Laura recebe um precioso barril de amigos distantes de igreja que frequentavam, contendo roupas, livros, sapatos e comida, suficiente para que todos os Ingalls pudessem finalmente celebrar o natal cm os vizinhos, sobreviventes do período de fome e medo. Todos os dias, quando leio as notícias que vem da contaminação em cada Estado, dos primeiros casos em favelas, do descaso do Estado e da insegurança que nos cerca, rezo para que possamos finalmente alcançar o dia em que seremos todos sobreviventes do longo outono que se aproxima, unidos novamente para abrir nosso barril de natal.


sábado, 21 de março de 2020
Do lado de dentro
Faz uma semana que estamos vivendo nossa distopia particular e o intenso barulho da cidade, em vozes e sons que se cruzam, vai se tornando aos poucos um burburinho cheio de silêncios. E medo. Do lado de foram ficam as memórias da vida tal qual era, com todas as pequenas certezas que a ignorância nos dá, os perigos de sempre, as notícias do dia, as imagens que construíamos, clique a clique, em cada passo que dávamos. De repente, à luz intensa dos holofotes contemporâneos fez-se uma inevitável escuridão, onde ficamos como cegos tateando uma saída que não chegará. Quantos séculos faz que esperávamos o fim de semana, as férias do ano, o chopp com os amigos, a mudança ou o telefonema? Ainda hoje eu podia lembrar da última exposição que visitei, do cheiro do piso de madeira do Centro Cultural dos Correios, da luz do sol atravessando a rotunda do CCBB, nas minhas constantes deambulações, desenhando a cidade no ritmo dos meus pés. Enquanto caminho pela casa, os últimos dias vem me visitar, como um filme do qual eu não me recordo o final. Os dias de verão, o cheiro da agua salgada, o frio da areia nos pês. E os dias de carnaval e de gastar desmedidamente todas as cores que ficam guardadas durante o ano, as saias, fitas, tintas, todas espalhadas nas ruas, nas retinas da gente, nos corpos suados, bailando sobre as pedras portuguesas, entoando as marchinhas que ouvia da voz melodiosa da minha tia, na hora de dormir. E era a estrala Dalva em pessoa que impávida, erguia as mãos, na lira do boitatá. Já no final daquela interminável semana de carnaval eu ainda cruzaria a cidade para ouvir Chico, na voz das mulheres, o coração ousando bater forte de novo, a pressa arrancando as meias arrastão pelo caminho, para sentir nos pês a areia da praia. E já foi o samba, marcando no chão, o compasso da Banda. E já éramos muitas sambando ali, mulheres, Genis, Marietas, acordando para o ano que vinha. Ah! Se soubéssemos, teríamos virado a noite em cantoria, jogado nossos corpos no mar, apenas mais uma vez, dançando em roda sob a chuva que caia, sem mais peso, sem mais dor, só alegria de existir. Enquanto faço o café as vozes das mulheres vão ficando mais e mais distantes, enquanto o cada vez maior silencio da cidade se i¬¬mpõe em todas as mentes. No primeiro clique imagens de famílias, reunidas, tentando manter uma rotina. Em todos os rostos, nos sorrisos cansados, uma pergunta soa-te quando? Dos especialistas vem a informação de que nossa quarentena durará meses de um luto da rotina, da liberdade de ir e vir, do desconhecimento geral do risco de ser e estar. Meses quando todos os nossos medos, exacerbados pelo cinema, se tornaram verdade. E no fundo dos nossos olhos, captados pela webcam, há uma verdade silenciosa que, em nossa pacifica covardia, não ousamos dizer: e todos os outros, aqueles que são maioria, sem teto, sem luz e sem agua, sem leitos nos hospitais de campanha, sem números para s tornarem estatísticas? Seremos responsáveis por suas mortes, ao ousarmos sair de casa enfrentando a resolução estatal? O que fizemos para carregar esse peso nas costas? A resposta é simples, bem sabemos. Calamos. Por tempo demais. Dores demais. Não sabíamos então os nomes e endereços das vítimas de nosso descaso? Por acaso achamos que a intervenção divina se encarregaria de tudo? Em um mundo onde enclausura-se é insano e perverso, bem sabemos , saber quais corpos estarão na praça, sem encontrar lugar. Deus nos perdoe.
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