sábado, 21 de março de 2020
Do lado de dentro
Faz uma semana que estamos vivendo nossa distopia particular e o intenso barulho da cidade, em vozes e sons que se cruzam, vai se tornando aos poucos um burburinho cheio de silêncios. E medo. Do lado de foram ficam as memórias da vida tal qual era, com todas as pequenas certezas que a ignorância nos dá, os perigos de sempre, as notícias do dia, as imagens que construíamos, clique a clique, em cada passo que dávamos. De repente, à luz intensa dos holofotes contemporâneos fez-se uma inevitável escuridão, onde ficamos como cegos tateando uma saída que não chegará. Quantos séculos faz que esperávamos o fim de semana, as férias do ano, o chopp com os amigos, a mudança ou o telefonema? Ainda hoje eu podia lembrar da última exposição que visitei, do cheiro do piso de madeira do Centro Cultural dos Correios, da luz do sol atravessando a rotunda do CCBB, nas minhas constantes deambulações, desenhando a cidade no ritmo dos meus pés. Enquanto caminho pela casa, os últimos dias vem me visitar, como um filme do qual eu não me recordo o final. Os dias de verão, o cheiro da agua salgada, o frio da areia nos pês. E os dias de carnaval e de gastar desmedidamente todas as cores que ficam guardadas durante o ano, as saias, fitas, tintas, todas espalhadas nas ruas, nas retinas da gente, nos corpos suados, bailando sobre as pedras portuguesas, entoando as marchinhas que ouvia da voz melodiosa da minha tia, na hora de dormir. E era a estrala Dalva em pessoa que impávida, erguia as mãos, na lira do boitatá. Já no final daquela interminável semana de carnaval eu ainda cruzaria a cidade para ouvir Chico, na voz das mulheres, o coração ousando bater forte de novo, a pressa arrancando as meias arrastão pelo caminho, para sentir nos pês a areia da praia. E já foi o samba, marcando no chão, o compasso da Banda. E já éramos muitas sambando ali, mulheres, Genis, Marietas, acordando para o ano que vinha. Ah! Se soubéssemos, teríamos virado a noite em cantoria, jogado nossos corpos no mar, apenas mais uma vez, dançando em roda sob a chuva que caia, sem mais peso, sem mais dor, só alegria de existir. Enquanto faço o café as vozes das mulheres vão ficando mais e mais distantes, enquanto o cada vez maior silencio da cidade se i¬¬mpõe em todas as mentes. No primeiro clique imagens de famílias, reunidas, tentando manter uma rotina. Em todos os rostos, nos sorrisos cansados, uma pergunta soa-te quando? Dos especialistas vem a informação de que nossa quarentena durará meses de um luto da rotina, da liberdade de ir e vir, do desconhecimento geral do risco de ser e estar. Meses quando todos os nossos medos, exacerbados pelo cinema, se tornaram verdade. E no fundo dos nossos olhos, captados pela webcam, há uma verdade silenciosa que, em nossa pacifica covardia, não ousamos dizer: e todos os outros, aqueles que são maioria, sem teto, sem luz e sem agua, sem leitos nos hospitais de campanha, sem números para s tornarem estatísticas? Seremos responsáveis por suas mortes, ao ousarmos sair de casa enfrentando a resolução estatal? O que fizemos para carregar esse peso nas costas? A resposta é simples, bem sabemos. Calamos. Por tempo demais. Dores demais. Não sabíamos então os nomes e endereços das vítimas de nosso descaso? Por acaso achamos que a intervenção divina se encarregaria de tudo? Em um mundo onde enclausura-se é insano e perverso, bem sabemos , saber quais corpos estarão na praça, sem encontrar lugar. Deus nos perdoe.
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