quarta-feira, 25 de março de 2020

O ponto fora da curva (do gráfico e da vida)

Enquanto tentamos digerir o último pronunciamento presidencial, minimizando os riscos de contaminação com o #Coronavirus e inacreditavelmente conclamando a população a sair às ruas em vida normal, recebemos a notícia dos primeiros números de casos em favelas cariocas. Em podcasts, textos, imagens, a população sem saneamento, água, espaço ou demais itens básicos de sobrevivência tenta explicar o óbvio a jornalistas que, em ritmos de trabalho quase tão insanos quanto os dos profissionais de saúde, tentam convencer a opinião pública de que não dá pra pensar em contenção de contágio sem pensar na faixa da população em situação de risco, desassistida pelos serviços mais básicos de vida. Em um deles, o entrevistado, um morador de seus 50 anos, dá um argumento cabal para a dificuldade de isolar os doentes :"só temos um cômodo na casa", explica o senhor. Enquanto isso academias de ginástica, cursos,faculdades e demais serviços organizam-se para produzir conteúdo e manter seus clientes,pacientes e que tais entretidos e em movimento. As narrativas sobre o #coronavirus alastram-se com velocidade quase tão grande quanto o próprio vírus e já multiplicam-se em rádios, podcasts,boletins e vídeos de muitas horas sobre contaminação, riscos, número de infectados e mortes. Também já há especialistas debruçando-se sobre os números da economia para pensar nos efeitos devastadores da paralização mundial (o tal lockdown) sobre empregos, produção e fluxos de pessoas e bens. O que não se fala,ou pouco se fala é das consequências humanas do isolamento, das práticas genocidas de Estados e instituições, para além de todas as mazelas do distanciamento social e da ansiedade causada pela espera por um pico de contágio em situações para lá de desfavoráveis em muitos cantos do Globo.E enquanto artistas, blogueiras e demais influenciadores digitais seguem pedindo que seus seguidores permaneçam em casa, transportes públicos, portarias, cabines de segurança, e etc. continuam a ser ocupados por cidadãos que não tem como opção a quarentena. E seguimos acompanhando com mórbido interesse o crescimento do número de mortos e contaminados em cada cidade e estudando comportamentos ao longo do mundo, como se em cada ponto do gráfico de contaminação estivesse a chave para nossa salvação . Por maior que seja a exatidão técnica, um gráfico jamais dará conta da enorme quantidade de histórias que circulam, à revelia ou por meio da pandemia, dos rostos assustados das pessoa ao cruzarem umas com as outras nos corredores das farmácias, dos amigos que insanamente decidiram permanecerem juntos no bar em uma rua de subúrbio, dos casais e famílias que criam infinitas formas de estarem juntos em plataformas mundo afora. Nem tão pouco do medo de quem recebe todas as informações sobre contágio, isolamento ,mas é invisibilizado pelos relatórios e previsões do Estado, principalmente o brasileiro. São o ponto fora da curva das previsões de estatísticas, mas representam 16 milhões de pessoas na linha de frente de discursos genocidas e irresponsáveis, como os do presidente.Deus nos proteja.

2 comentários:

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  2. A curva fora do ponto (das cegas lentes que desfocam o social)

    

”Entra Fernando e sai Fernando e quem paga é o povo, Que pela falta de cultura vota nele de novo… E paga caro, com o corpo e fica a alma… E entrega na mão de um pastor pra ver se salva…
Com a barriga vazia não conseguem pensar… Eu peço proteção a Deus e a Oxalá… Infantaria que eu sou e sou na linha de frente… Rio de Janeiro, fim de século… A chapa tá quente…”

 Stab - Planet Hemp 



    É quase que impossível não começar esse texto com parte dessa música de Marcelo D2 na sua extinta banda Planet Hemp.
    
A realidade nua e crua do desfoque que as lentes da mídia tem sobre o aspecto social do Rio de Janeiro, país e mundo tem. 

    Não, não são dados viciados de cassino ou um Sete de ouros no poker. 

    É como uma Miquelina de copas Fora, que pesa 10 pontos sob o seu jogo e a sua mesa, lhe tirando inegavelmente o seu direito de ter direitos. 

    Mas o dever é o sofrimento, descaso, falta de estrutura, a cadência de uma harmonia sem fim que desfila na nossa cara diariamente nos fazendo refletir sobre certos quesitos não julgados. 



    O social não sofre só com o #coronavirus.
O social sofre com as chuvas (de primavera, de verão, de outono e de inverno), sofre com as “Águas de Março”, mas não pelas vozes de Tom Jobim e Elis Regina, sofre como um samba descompassado e atravessado que não passa por nenhuma avenida. 



    O social sofre com a falta de estrutura e planejamento de governos (e desgovernos…) que insistem em promessas, resenhas editoriais e debates onde a falácia é uma: “Seduza-se por meu encanto e nesse acalanto, venha aos meus braços com seu voto”. 

As lágrimas de quem não tem nada e perde tudo já são lugar comum.


    Mas essas sim, essas interessam aos olhos do mundo para transformar águas claras e salgadas em capital.



    Estamos entregues a um pastor que não tem pedigree, que não cuida do rebanho que não tem as mãos de Deus. Esse mesmo pastor é um intolerante religioso assumido onde o mesmo Jesus que o guia, guia outras religiões apenas por um nome diferente. 



    O líder (ou “líder”, como queiram) da nação (e não é a rubro-negra) quer provar pelas vidas de um povo, uma teoria que apenas ele conhece. Sob rasos conhecimentos de leitura e informação, arte, saúde (principalmente “vida de atleta”, só quem foi sabe o que é) quer libertar o povo das cavernas, coisa que nem Platão faria em seu mito, anunciando a todos que não é uma situação grave. 



    Um instante… “Aaaaaaatchim…”, Calma , é só uma “gripezinha”.



    Essa mesma que disseminou a Itália por ser o “Velho Continente”, assolou Londres, assustou a Espanha, mudou Paris, cancelou uma Olimpíada, adiou o Mundial de Surf, cancelou a F1, Copa da Europa… 

Mas, o tal líder foi atleta.

    Só que pra ser atleta, a gente precisa de INTEGRIDADE. 

    Isso mesmo. A de caráter e a física, e essa não se compra na quitanda. 



    Bom, vou terminar a música e me cuidar, por que como uma das estrofes diz: ”Se eu vacilar um filha da puta rouba a minha alma…”.

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