Dos livros que fizeram minha infância mais feliz e silenciosa, a série norte americana sobre Laura Ingalls acompanhou grande parte dos meus dias, com sua narrativa sobre uma família pioneira, que atravessa os Estados do Winsconsin até Iowa (cerca de 323 milhas) a bordo de uma carroça de madeira. No sexto livro a autora relata uma grande nevasca que atinge o povoado onde Laura e sua família viviam, bloqueando os trens e interrompendo o abastecimento de comida de famílias inteiras, que ficam à beira da inanição por sete meses. Em dado momento, nos últimos dias antes de finalmente conseguirem desbloquear o trecho de teoria e fazer os trens passarem, a autora pontua os últimos dias com o que restava dos suprimentos, uma farinha escura suficiente para fazer um biscoito para cada um dos membros da família e nada mais. Nesses dias de quarentena, em que a insegurança e o medo dominam nosso imaginário, uma imagem, construída por mim a partir da leitura, vem continuamente a cabeça: após o longo inverno a família de Laura recebe um precioso barril de amigos distantes de igreja que frequentavam, contendo roupas, livros, sapatos e comida, suficiente para que todos os Ingalls pudessem finalmente celebrar o natal cm os vizinhos, sobreviventes do período de fome e medo. Todos os dias, quando leio as notícias que vem da contaminação em cada Estado, dos primeiros casos em favelas, do descaso do Estado e da insegurança que nos cerca, rezo para que possamos finalmente alcançar o dia em que seremos todos sobreviventes do longo outono que se aproxima, unidos novamente para abrir nosso barril de natal.

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