sábado, 5 de setembro de 2020
Um sábado de sol em plena pandemia
Enquanto nossas semanas de inverno se tornam uma vaga lembrança e o sol de primavera abre as janelas do peito de todos nós, as ruas do centro do Rio recomeçam a ser ocupadas.Feiras livres, bicicletas, vendedores ambulantes, a cidade se reinventa, perigosamenente, traçando uma corda bamba entre a normalidade e o caos, criando novos hábitos e remodelando outros, sem jamais deixar de caminhar entre Eros e Tanatos,morte e vida atravessando os trilhos de todos os dias. Tornou-se comum asssitir pequenas aglomerações de famílias inteiras sem máscara, ou pessoas que se arriscam caminhando sem proteçã alguma. Em todos os rostos, cobertos ou não, o prazer e o medo de sentir na pele o sol de um sábado azul. E é com um sorriso besta debaixo das máscaras que percorro a trilha vazia da Praça 15 até o Píer Mauá, encontrando no caminho casais, crianças e cachorros, a grande maiorria sem máscaras. Sinto aos poucos as lágrimas escorrerem do rosto protegido com óculos e duas máscaras, ao pisar novamente o chão do centro do Rio, tantos fins de semana passados no percurso do casario, do calçamento de pedra antiga, do inevitável abandono da esquina.Como se aos poucos, ao me reapropriar daquele território, tantos meses de ausência, a curvatura das asas se contorcesse querendo novamente alçar voo. Aqui e ali, enxergo movimentos contrários a toda recomendação, há bares abertos e cerveja sobre as mesas, pipoca vendida na esquina, balões coloridos na frente do museu.Tudo passa como dantes.Mas em meio a balbúrdia que afirma ser a vida uma teimosia furiosa de quem resiste, é impossivel não entreouvir o silêncio ressoante de tantos mortos,milhares deles, que sentimos até os ossos, em um frio que atravessa o peito e que convida a olhar as águas azuis da Báia, à espera de dias melhores
segunda-feira, 31 de agosto de 2020
sobre silêncios
Diário de Quarentena.Um domingo qualquer
Uma das coisas de que mais vou me lembrar se tiver a sorte de sobreviver à pandemia é do silêncio.Não falo do intervalo entre sons, tão comum à vida de todos os dias. Me refiro ao silêncio que vem de dentro do peito,que atravessa os ossos e que te alcança independente de onde esteja. Seja numa praia lotada - inacreditavelmente cada vez mais frequente nesses tempos - ou em uma casa vazia, desses corredores cada vez mais frios da vida de todos nós, seja qual for o momento. De repente diante de um magnifico céu azul de domingo, por maior que seja o calor,há sempre um vento frio que te alcança e faz chegar o silêncio que congela o sorriso, paralisa as conversas, doi na alma. E é de silêncios que seguimos, na toada de sobrevivências que nos cabe, mais ou menos adoentados que estamos todos, física e psicologicamente.Nos longos meses que se seguem, a felicidade é um produto em constante promoção, assim como resiliência e auto cuidado.. todos são exibidos constantemente nas prateleiras virtuais de nossas redes, disfarçados sob a etiqueta de "novo normal". Mas como é possível haver normalidade depois de 180 dias de incertezas, dores e caos? e isso se tivemos sorte. seguimos aqui, estupidamente tentando não ceder ao espanto, a inercia e a tristeza, reinventando-nos todos os dias, sobrevivendo sempre que possível. E as vezes simplesmente não é possível. Por vezes a dor e a raiva exacerbam, ante a impotência de ser e estar. Mas ainda cabe um instante em que temos esperança.Até lermos o noticiário.Que nos alcança.avança pelas janelas, atravessa muros, se insinua pelas frestas das portas. E então tudo parece mais cinza e cada um dos mortos se soma aos dias de quarentena. Até quando?É a pergunta que não ousamos mais dizer. E qualquer plano para depois da pandemia parece esvanecer diante dos ponteiros do relógio.Sobrevivemos,quase todos,mais por teimosia do que por convicção. E já há aqui e ali focos de resistência de gente que insiste em não somente sobreviver e produzir,mas viver,intensa e afetivamente, como em desafio. Aqui e ali vemos um outro sorriso em um instante fugidio, onde parecemos voltar a vida e respirar, profundamente. E já há pés que correm em direção a águas e verde, grama e areia misturadas em imagens que ousam mostrar que ainda temos saída. Em tempos de confinamento, a felicidade é um desafio, enfrentamento a morte, mãos dadas furtivamente.Porque uma coisa que não se pode negar é que, inevitavelmente, ainda mantemos em algum lugar a fé de um depois. E seguimos ávidos de amor e sorrisos .Enquanto outro silêncio não vem.
#covid19 #quarenteners #quarentena #pandemia
sexta-feira, 28 de agosto de 2020
Sobre amor, quarentena e cotidiano
Uma das lições mais doídas dessa quarentena foi a constatação de que tudo que é sólido se desmancha no ar e que a sobrevivência não está somente nas medidas de higiene,cuidado e prevenção que temos, mas no tanto de afeto cotidiano que nos cerca. Abençoados aqueles que enfrentam essa pandemia desconstruindo necessidades do supérfluo e mergulhando na relações afetivas fundamentais, de filhos,parentes, amores. O que nos sustenta não é a live de sexta ou os cursos que fazemos, nem mesmo a meditação de todos os dias.O que nos sustenta, acreditem,é o café compartilhado na cozinha, a consciência em comum da mudanca da luz do dia, o dividir angústias no intervalo das tarefas de sempre, o medo que se transforma em resignação.da resignação novamente para o medo.Do medo para o afeto, das mãos que se encontram e para a verdade que se vive.Todos os dias. O feijão que se cozinha, o cheiro do bolo que atravessa a casa. Agradeçam aos céus se tiverem com vocês amores que atravessem todos os ponteiro do relógio dessa quarentena, luz e sombra, conflito e acolhimento. Porque é desse lugar de afeto que saíremos no final de tudo, um tanto mais tristes mas essencialmente mais fortes se tivermos a coragem de mergulhar .
sábado, 8 de agosto de 2020
Diário de quarentena. Tantos meses que já não sei mais o que é um calendário
Diário de quarentena. Tantos meses que já não sei mais o que é um calendário
Esqueça o que te disseram sobre resiliência. Em tempos de pandemia, não é a rígida rotina de exercícios, a dieta equilibrada, a organização do caos em meio ao privilégio de estar protegido entre quatro paredes. Não é em absoluto a vasta pilha de tarefas realizadas com perfeição. O que nos segura com os pés no chão – o chão que nos resta - enquanto o mundo vira de cabeça para baixo é o afeto compartilhado de todos os dias. Os abraços que sonhamos em dar, as palavras que ouvimos no intervalo da rotina, os rostos que conseguimos ver sorrir, os pedacinhos de felicidade que conseguimos conservar, os corpos que se encontram e acolhem no meio da noite. As vozes que ainda ouvimos. O reservatório de afeto que conservamos junto ao peito nesses tempos, para podermos continuar a respirar.
Esqueça o que te disseram sobre manter sua rotina de trabalho. Não. Há. Rotina. Na. Pandemia. A cada dia centenas de pessoas – não apenas pessoas - mas amigos, maridos, irmãos, mães, cunhadas, avós - se vão. Por causa ou apesar do vírus. Porque à contaminação do corpo, sempre há a da alma e já são muitos os que se vão também, atravessados pela irremediável atmosfera de tristeza e desânimo que nos acomete. E seus sonhos, energias, histórias e afetos pairam no ar, como uma nota dissonante que ressoa nas paredes vazias, bruma úmida que arrepia a pele, quando o sol ainda não chegou. Por todo lado há ecos de encontros que não vão mais acontecer, abraços que só moram agora na memória, cheiros que entranharam nos quartos, nos lençóis, na roupa acumulada na área, naquele café em cima da mesa. Há fotos que foram guardadas em gavetas, para não doer tanto e para a vida seguir. E de fato seguimos, mais ou menos quebrados, acordando sob o medo diário de sintomas, de loucura ou de covid, agradecendo a sorte de mais um nascer do sol, conferindo os deveres, espichando os ouvidos para sentir, nas paredes vizinhas um fragmento de vida que traga um tanto de normalidade às horas. Esqueça o que te disseram sobre a pandemia. Resistimos nos instantes roubados, mãos, beijos, pele, todo contato humano ainda remanescente. Não são nossas produções, os livros que lemos, competências e habilidades aprendidas, os filmes, a intensa produtividade partilhada em obrigações. Não são os títulos, os cursos, a insana necessidade corporativa de ainda ser e estar, a teimosia em se agarrar ao que éramos antes, como se ainda fôssemos. Não somos. Mais. Somos ao contrário 700 mil histórias interrompidas, vidas que queriam continuar, não para o trabalho, a rotina, os títulos. Mas para somente mais um instante de afeto, para sentir mãos e braços, pernas e vozes, para os cheiros e texturas do encontro. Para a vida que não se pode mensurar. E que faz tanto sentido dentro do peito. E que nos faz humanos. Ainda. Para isso estamos aqui. Sobrevivemos e nos levantamos todos os dias para o beijo, os abraços, a música que ainda conseguimos escutar juntos, o absoluto privilégio de ter o coração ainda aberto pelo amor, resistindo em meio ao caos, benção divina que protege corpo e alma, oração compartilhada em dias e dias de reclusão. Tal foi a tarefa impingida pelo Universo, se é que ainda nos ouve e considera parte do Todo. Amor, irremediável e inútil para o mercado e os selfs, fora de moda e cotidiano.Ainda e sempre real No instante do recomeço, acreditem, todas as nossas tarefas realizadas restarão sobre a mesa, diminutas diante da imensidão dos reencontros. Esqueçam o que te disseram sobre o que fizemos. Sobre as profundas análises sociopolíticas, de todos os filósofos que ousarem compreender o período que vivemos. Quando olharmos para trás, se tivermos a sorte de estarmos lá – no que ainda vai ser - será o amor a única resposta para quando nos perguntarmos como foi que sobrevivemos.
#quarentena #covid19 #pandemia #quarenteners #covid #coronavirus
domingo, 12 de julho de 2020
Sob o mal-estar social em tempos de pandemia
Sob o mal-estar social em tempos de pandemia
Junho passou como um golpe de foice, cortando todas as nossas certezas sobre o que significa estar inserido em uma pandemia, a tolerância de todas frentes aos mortos – milhares deles - a ineficácia do sistema mundial de prevenção a epidemias de escala global, a previsão de retorno e do que significa normalidade. Como chamar normal um contexto onde seguimos sob a ameaça de morte, as emergências ainda acolhem muitos doentes, os testes de vacinas seguem em franca evolução, mas sem um cronograma possível e as ruas – inacreditavelmente - seguem cheias, como se não tivéssemos nas esquinas um vírus capaz de entupir completamente os pulmões e literalmente interromper a circulação do oxigênio causando asfixia, o comprometimento do organismo e a morte do paciente. Para não falar nos efeitos colaterais dos muitos que se recuperam. Alheios à gravidade dos sintomas do vírus, homens, mulheres e crianças começam pouco a pouco a tentar recuperar o tempo perdido em mais de 120 dias de quarentena- para aqueles que podem dar-se ao luxo de estar em isolamento - e já é possível ver restaurantes, lojas, padarias, repletos de pessoas. Algumas assustadas, usam máscaras e protetores para olhos. Outros, inadvertidamente, ousam atravessar a cidade sem proteção. Aqui e ali os transportes públicos seguem lotados e já são maiorias que não usam qualquer tipo de proteção- mesmo dados os decretos do governo federal, estadual e municipal impondo o uso de máscaras – sob o risco de multa. E assim o Estado conduz sua mise-en-scène, enquanto as operações policiais seguem deixando dezenas de mortos a cada dia, as praias restam interditadas, mas em pleno uso, os desempregados acumulam-se tentando sobreviver em um ambiente de convívio majoritariamente virtual, de trabalhar, consumir, socializar e divertir-se e os primeiros drive-ins. começam a adentrar a cidade na mesma urgência em que empresas e universidades, serviços e profissionais liberais tentam adaptarem-se ao “novo normal”. Enquanto cientistas alertam para o risco de contaminação por vias aéreas do novo covid-19, bares e casas noturnas – com honrosas exceções- recomeçam a abastecer o estoque de bebidas alcoólicas, com restrição de acesso a suas dependências. E no apagar das luzes, mais um ministro da Educação defende o braço ainda mais pesado do Estado – como se já não pesasse sobre a população mais vulnerável- diante da educação de crianças e jovens. Nesse cenário de horrores a república brasileira se desfaz em pedaços – de cidadania, respeito e justiça. E o racismo, a homofobia e o genocídio de negros indígenas, pobres, mulheres, lgbtqs e crianças seguem sendo a pauta silenciada dos jornais. E sobrevivemos todos os dias em um Estado de mal-estar social - enquanto os primeiros shows de drive-ins. ocorrem nos bairros mais nobres do Rio de Janeiro. E o campeonato de futebol segue. As novelas programam novos capítulos. E as empresas turísticas, alimentícias, de marketing, esportes fazem planos para 2021, diante de um 2020 que ainda não começou.
segunda-feira, 1 de junho de 2020
Levantes
E finalmente chegou o dia em que perdemos o medo.Súbito, já não nos importa mais se vamos morrer. Porque todos vamos e a caçada permanece.Incólumes, governantes e empresários seguem a campanha pelo retorno à normalidade e a retomada de trabalhadores a seus postos,cerrando filas em detrimento de suas próprias vidas. Risco? Contaminação?Sob o discurso velado da fome, um burburinho se torna discurso oficial e lança às costas da população mais uma responsabilidade:a de decidir quem vive e quem morre. Sem que alguém diga como a desigualdade social pode garantir o isolamento necessário ao controle do covid-19 entre a população vulnerável. A que não está em quarentena, por absoluta necessidade de sobrevivência. A que morre todos os dias, nas esperas das emergências superlotadas ou sob os intermináveis tiroteios financiados pelas políticas públicas. A que teme por seus filhos, maridos e amigos, quando portam máscaras, a que ocupa os postos de trabalho fundamentais .De outro lado, segue o vozerio dos bem nascidos. Já são longas as filas de carros - sim, senhores, carros - enfeitados com bandeiras nacionais, que seguem as longas avenidas dos bairros de maior IPTU das cidades pedindo pelamordedeus que não deixemos a produção do país ao relento,que retomemos nossas atividades para que a economia - sempre ela - não seja prejudicada.Corpos?vidas?São estatísticas, usados aqui e ali, nos discursos oficiais, para justificar o impossível. Algumas mortes são mais representativas que outras, aparentemente.Contudo,o que não se esperava,em um tempo onde os mortos se contam às dezenas de milhares, era que um evento, um assassinato, somado aos muitos que permanecem nas páginas diárias da imprensa, fosse provocar o levante há tanto tempo esperado. Porque não se tratava “apenas ‘de uma morte. Mas do sistemático genocídio de mais um corpo negro. Somado aos milhares de nomes de meninos, cujas fotos vão sendo pouco a pouco enfileiradas nas páginas dos jornais. De repente, algo furou a bolha de medo e imobilidade erguida diante da pandemia. E as ruas começaram a ser tomadas de corpos,não mais em protestos virtuais, mas sim, ombro a ombro,máscaras e álcool em gel, berrando a plenos pulmões:#blacklivesmatter. Nunca importaram para o Estado.Nunca para o crescente discurso fascista que margeia daqui e de lá, encontrando eco nessas paragens latinas, em grandiloquentes gestos de desprezo à preservação da vida.Súbito, bastou! No último domingo, dia 31 de maio, as primeiras mobilizações começaram a acontecer.Vindos não se sabe de onde, mascarados marcham nas ruas do país, somados-e aos braços erguidos de grande parte do mundo. Entre fogo e gasolina, resta aos governantes refletirem, uma vez visto o ocaso total do regime representativo que os sustentou por tantos séculos:como enfrentar uma multidão que perdeu o medo da morte?Como ousar retornar o estado anterior, quando iooi primeiro movimento foi feito e encontrou ecos os corpos e mentes de tantos?E enquanto muitas vozes se posicionam contrárias ao fascismo, a pandemia segue, sem que, desse lado do oceano tenhamos vacina, políticas públicas de saúde, garantia de renda mínima a quem não pode ainda voltar a trabalhar.Súbito, a raiva e a indignação - até então silenciadas diante do caos pandêmico- atravessaram as janelas e iniciaram sua marcha, sem destino certo.o que importa é ocupar espaços.muitos.Todos se preciso e derrubar muros, para que nenhum outro corpo seja novamente assassinado sob os pés do Estado.
quarta-feira, 27 de maio de 2020
Despedidas
Queria te deixar um abraço.Daqueles que a gente dava, no intervalo da vida.O oi sorridente dali,da beira do balcão, da janela da rua, do carro, dos encontros ocasionais naquela cidade do interior onde costumávamos ir. Queria te dizer que vai rolar o chopp,que a gente ainda vai se ver. Te chamar para vir aqui. Dizer que já é tempo de festa junina. Porque ontem fez frio e talvez esse ano a quadrilha seja ainda mais animada. Queria te mostrar as fotos das meninas.E te ver falar da tua menina também.. Pra gente se admirar..E rir da nossa própria idade, contemplando juntos a passagem do tempo.. Queria te dizer que teremos mais aquela festa, ou a benção do acaso para podermos nos encontrar.Infelizmente não há..Mais tempo.Encontros e acasos. Mais ainda há você E nós. Aqui dentro,nas memórias que cultivamos e há, nos risos,conversas, os instantes vividos. Porque afinal de contas é só sobre isso. Não é mesmo?Não sobre títulos, conquistas,sucesso, a política nas esquinas, o comentário geral do nosso cotidiano, a dimensão lógica da existência. Nunca foi sobre isso. Sempre foi de encontros, as mãos estendidas, o abraço que chega na hora certa, a ligação de bom dia.. O ser e estar... Sempre foi sobre estarmos juntos no sol..Esperando que o dia passe. Que a gente possa se reencontrar. Um dia. E iremos. Por hora seguimos daqui. Cada um de seu lado, percorrendo a estrada de vida e de eternidade que lhe cabe. Mas não, nunca foi sobre lógica. Sempre foi sobre amor.
Sobre amor (Para Pri)
sobre amor
Deve ter vindo das milhares de páginas que li um dia - tentando dar sentido à minha própria existência - a ideia de que o que torna a experiência humana mais intensa do que as dos demais seres vivos é a certeza da finitude. De fato, é justamente pela relação antagônica que estabelecemos com o tempo que vem a profundidade de nosso sentir e a relação que criamos com o universo. Sabemos de antemão, que iremos acabar. Por isso nossas paixões são tão profundas e nossas transcendências tão representativas. Somos feitos para não durar. Talvez por isso, criamos recursos para tentar apreender a passagem do tempo, tais como tecnologias, traquitanas, praticas. Também recorremos à linguagem e em dado momento, um de nós, provavelmente mais afeito ao universo imaterial de nosso vasto manancial de emoções, compreendeu que, de todas as experiências humanas, o amor era a que mais profundamente dialogaria com a ideia de eternidade.
Quando nos apaixonamos, quando nos deixamos afetar pelo outro,em qualquer instância, entendemos de um modo distinto a relação profunda do universo com a duração. No percurso até o outro, no exercício doloroso de desnudar-se em porções mais ou menos controladas de fragilidade, nesse irresistível espelho através do qual contemplamos a nós mesmos quando olhamos para o outro, está o que nos faz existir. Porque somos "com”. E que outra experiência poderia ser mais significativa do que a do sujeito que se apaixona? que cria vínculos? No amor ou na paixão, fragmentos e ritmos distintos de vieses peculiares da relação do homem com o tempo, reside a experiência de eternidade que nos atravessa por vezes. É justamente no amor que reside o viver para sempre. E se o amor é o elemento que une os fragmentos de tempo que compõem o que nos faz humanos a morte é a ruptura jamais pensada, experiência radical que interrompe o fixo do existir. Mas então, como sobreviver ao tempo e seu denso espectro de rupturas? A resposta é uma só. Amando, estando aberto para o encontro, o inadiável comunicar de dois universos, diante do medo, do caos e de nossas pequenas certezas, colocados um de frente para o outro, por um instante somos. Será, por fim, no espaço poético que só o amor consegue construí que dialogamos com a experiência humana, por tanto amem, mergulhem ,experimentem atravessar a morte enquanto desequilíbrio fazendo-nos em um indescritível instante, ousem ser eternos.
terça-feira, 26 de maio de 2020
Vazios
De provisórios e vazios vamos construindo nossos cotidianos, em meio à pandemia que avança, a cada semana somando mais uma casa decimal ao número de doentes e mortos. Nas cores esmaecidas da rotina viramos zumbis, resgatando pedaços de rostos, risos, memórias e afetos, tentando sobreviver. Somamos nossos dias aos hábitos que já não temos mais e colecionamos histórias de horror para a hora de dormir. O momento mais terrível não é quando a luz apaga e todos se calam. O silêncio mais frio, que gela a espinha, vem em plena luz do dia, quando abrimos nossos olhos e descobrimos que não estamos em um pesadelo, mas na incompreensível realidade que se estende infinitamente diante de nosso desespero. E ignoramos os corpos negros, furados à bala, nas esquinas. Que não contam nas estatísticas, normalmente feitas por mãos brancas, limpas, preservadas em salas acumuladas, sob paredes de cimentos, vidro, tijolos, quarentena. Aqui e ali, resistências, lágrimas e luta. Enquanto o botequim da esquina vai pouco a pouco retomando os copos molhados enfileirados diante do balcão. E aquele famoso diretor planeja o lançamento do novo filme. Nos. Cinemas. As lojas oferecem máscaras em promoção. E o Estado convoca um a uns seus melhores trabalhadores. Médicos. Enfermarias. Professores. A convocação é geral. Precisamos retomar a economia. Mas que matemática é essa que divide em mortos e vivos aqueles que irão sobreviver, que contabiliza valores ao bel prazer dos estatísticos, que acumulam prognósticos aterradores se não retomarmos a produção. De que produção falamos, senhores? Balas? Fuzis? Máscaras de oxigênio? Corpos? Enquanto isso as enfermarias seguem em silêncio, corredores frios atravessados pelos passos exauridos de mulheres de branco, luvas e máscaras que cortam fundo na pele, que já não conseguem mais chorar. Mães e pais e filhos seguem na fila de espera de internação e os jornais anunciam 1181 mortos, dentre os contáveis, número onde jovens negros executados em favelas não costumam figurar. Pandemia? Genocídio. Sistemático, constante e sobrevivente ao vírus. E enquanto os homens empunham armas, mulheres lidam com respiradores, cada dia mais escassos. E hoje é dia de “live” de quem? Se sobrevivermos ao vírus, certamente sucumbiremos ao marketing. Invadindo cada espaço da melancolia cotidiana, inspirando a conjugar o verbo resiliência. Mas o branding que não se mostra é a interminável fila de trabalhadores, sem máscaras, que seguem garantindo o isolamento alheio. Ficamos em casa não mais por apenas necessidade física, mas porque quase todos sabemos que já fazemos parte das estatísticas e morremos todos aos poucos, a cada cova que se abre, a cada máscara descartada, a cada enterro sem flores, sem sentinela, aos milhares de doentes não contabilizados, a tudo que morreu. Deveríamos morrer também a cada operação policial, a cada chute de coturno na porta, a cada cesta básica alvejada, enquanto muitos morrem de fome. Mas seguimos aqui, , doentes, confinados ou não, esperando o dia seguinte, sem trégua, sem salvação, buscando em um fragmento qualquer de pôr do sol a brusca salvação pela poesia. E sem saber quantos e como seremos, amanhã de manhã
quinta-feira, 14 de maio de 2020
14 de maio
Sessenta dias de quarentena. E sim, o número também me assusta. E já não lembro em que semana fui à rua, comprar um filtro na loja de ferragens. E da última vez que entrei na padaria ou no mercado. Sei que, toda vez que consigo observar as pessoas caminhando, quando vou à portaria, ainda me assusto, não com as máscaras, mas com seus olhares, onde medo e cansaço se misturam. Por aqui dias bons e ruins. Muita solidão e silêncio. Dias de sol também. E por vezes, risos e passinhos pela casa me salvam. Desejo de fugir. De desistir. De prosseguir. Tudo junto. Receitas infalíveis para tornar o dia melhor. Sobreviveremos? É a pergunta que me faço todos os dias. De que forma? Como? Em qual grau de dor e luto? Com quantos textos escritos? Aprenderei uma nova profissão? Terei chegado a alguma conclusão mirabolante sobre o universo e sobre mim mesma? Ou apenas aguardarei, sentada no chão de minha cela, que alguém abra a porta e me ajude a levantar? Nesses tempos a dança tem sido minha maior companheira e tudo que vem com ela, amigos, movimento, imagens capturadas no chão do quarto, esperança e alívio para dor. Vejo as primeiras fotos, ainda de março, e percebo o quanto eu tinha esperança de que tudo fosse passar rápido, acreditando que o período de quarentena não fosse me afetar. Mas é fato que, tanto tempo depois, na expectativa de mais alguns meses de reclusão, a luz do sol através da janela já não me basta. E as mortes acumuladas. E a desesperança. E o fato de que a estupidez humana não tem e nunca terá medida. E que há dias onde o sol não chega. Principalmente no outono, época que espero anualmente para capturar os dourados do mundo. Teremos um outro outono? Certamente. Mas quanto de nós restará para percebê-lo? Nesses dias de tentativa de produtivíssimo e de adivinhar um caminho, 12 anos depois de traçar uma rota, eu me pergunto: e se eu tivesse me perdido dede o início e empreendido a dolorosa viagem para aquilo que me move? A arte, a dança, o precipício ali diante dos olhos e a coragem de mergulhar? Sobrevivência. Tão real quanto a necessidade de respirar a cada dia e me reinventar, em medidas mais ou menos urgentes. Tantas quanto vejo ao meu redor, dos meus amigos e pessoas que amo. Todos estamos em alguma medida tentando sobreviver. Respirar e seguir em frente. Com pausas dolorosas. Lutos silenciosos. Choros contidos. Resistências e coragens diárias. Sei que as vezes a voz do outro não basta. Queremos o toque. Precisamos ouvir a nós mesmos? Tocar a nós mesmos? Inevitavelmente. Mas como se o burburinho midiático da crise humanitária que enfrentamos se soma à total insegurança sobre o futuro? Ainda não tenho respostas. Mas sei que, como parte dos meus processos, há um milagre pessoal que por vezes me acomete. Acordar cedo e contemplar o nascer do sol. Essa á benção inesperada com que as vezes o universo me brinda. E vocês? Quais são seus milagres cotidianos e como eles te salvam todos os dias?
terça-feira, 5 de maio de 2020
Das águas de abril
Abril passou como uma velha locomotiva, das que ainda há pouco podíamos ver nas cidades mineiras do interior do Brasil, lento e inexorável e carregando em si uma imensa quantidade de memórias. Enquanto a contaminação de covid-19 se alastra em cada rua, permeando de medo todos os minutos do relógio, seguimos tentando sobreviver ao caos, à troca de um Ministério da Saúde e, no apagar das luzes, à saída do Ministério da Justiça e a troca do comando da Polícia Federal, comandados pela tresloucada presidência da república. E se a situação pandêmica é avassaladora em qualquer país do mundo, em terras brasileiras ela se torna desesperadora pois, à ausência de testes, à superlotação dos hospitais e ao desacordo sobre manter ou suspender o isolamento, temos um chefe do Executivo que mantem a necropolítica de contar corpos, usando-os como sustentáculo de uma economia incipiente. Assim, por aqui situações como manifestantes nas ruas agredindo a imprensa, brigando pelo direito de estarem na rua expostos ao vírus não são uma piada de mau gosto, mas a prova de que caminhamos muito mal na construção de consciência política. E seguimos aquecidos enquanto mercado consumidor, marketing e publicidade trabalhando juntos para alcançar o público que tem o privilégio de estar recolhido às suas casas, reinventando brandings, estratégias e design e já há marcas cuja mensagem está centrada em tentar alcançar aqueles que conseguiram o auxílio emergencial de 600 reais, enviado à duras penas para complementar a renda de milhares de famílias durante a pandemia. Vendo tais práticas e a enorme quantidade de pessoas obrigadas a saírem de casa todos os dias, não é difícil imaginar porque lidamos hoje com o covid-19 e porque a Terra parece respirar aliviada pela ausência de humanos em seu ambiente. Comparados, somos muito piores e mais letais. Contudo, à toda regra há a exceção e ainda há filas fortalecidas em combate, de corpos majoritariamente femininos. Médicas e enfermeiras mantendo o trabalho diário de tratamento de pacientes, mesmo sem condições adequadas de trabalho, mesmo vendo suas companheiras tombarem. E começam a noticiar os primeiros suicídios, quebrando o tabu – um dos poucos de que se tem notícia – de silenciar quem tira sua própria vida. E já há quem afirme que não sairemos dessa. E sim, não sairemos. Pele, ossos, carne e emoções restam ali, presos aos últimos dias anteriores ao primeiro pico de covid-19, quando podíamos ir e vir debaixo de sol e chuva e as pequenas e grandes desigualdades do cotidiano não nos atingiam além do limite do noticiário, do tempo do feijão no fogo, de nossos compromissos diários, da dor e da perda, quase sempre relegadas ao segundo plano dos dias normais. Agora a morte se avizinha cada vez mais e nos segue como uma sombra, nas sacolas de mercado, nas caixas de remédio, no toque ao acaso entre corpos, nos olhos por trás das máscaras enquanto seguimos nas tarefas cada vez mais longas e extenuantes. Enquanto isso, caixas de supermercado são obrigadas a trabalhar sem máscara, moradores de rua admiram a passagem de mascarados pelas esquinas, sem proteção ou auxílio além do gesto individual e prosseguimos na imposição das aulas online enquanto a muitos falta a água e o pão. Seguimos na constante vigilância do surto alheio, seja por vender uma normalidade que não existe mais, seja pela intensidade do desespero de todos nós. E desaprendemos todos os dias a chorar os nossos mortos. Mas seguimos, quase todos, conservando em um lugar defeso aos olhos alheios, um componente de esperança, para uma cura que - hoje já se sabe - não há precisão de data ou modo. Só o que persiste é a arte, ousando atravessar os muros, postar-se no meio da praça e desafiar a morte, propor um tipo agora distinto de silêncio e sonho e nos fazendo, nos raros fragmentos de execução de uma música, peça, dança ou filme, novamente companheiros de humanidade.
#covid19 #quarentena #coronavirus
domingo, 12 de abril de 2020
Isaac
Faz exatamente uma semana que ensaio esse texto. A cada dia ele começa de uma forma diferente. Motivador, ansioso, dramático, leve. O que não muda é o fato de que pareço estar escrevendo sobre o mesmo dia. Porque são as mesmas horas, divididas entre o intervalo de acordar e dormir novamente. Entre o estranhamento dos olhos que se abrem, no percurso da cozinha para o café já cabem todas as notícias sobre a pandemia e enquanto volto para o quarto, mais corpos se acumulam ao redor do mundo. No Brasil somamos o primeiro milhar de mortes, enquanto a presidência continua ignorando os apelos desesperados dos profissionais de saúde e cientistas para que permaneçamos em casa. E já há coveiros sendo contratados às dezenas para lidar com as mortes em Nova York, contrastando com o número de lives no instagram. Enquanto três milhões de pessoas se unem às músicas e shows de seus artistas preferidos, no extracampo há dezenas de trabalhadores produzindo luzes, cenário, vídeo e som, garantindo que a mensagem chegue ao respeitável público, de que devem permanecer em casa, fruindo a diversão que os alcança gratuitamente via redes sociais. Mas permanecem, fora do alcance da câmera, quase todos sem máscara. No bairro onde moro as máscaras começam a ser uma constante, o que não impede a região de ser o novo epicentro do Covid-19 da cidade, unindo uma acelerada contaminação de pessoas às primeiras mortes em hospitais públicos, enquanto o fluxo de carros e ônibus segue igual. E a fila do banco permanece exatamente como antes, corpos acumulados à centímetros de distância e trabalhadores sem máscaras fornecendo toda ajuda necessária. Alguns dirão que são escolhas. Mas qual é a escolha dos entregadores de comida, farmácia, mercado que cortam a cidade garantindo que famílias inteiras possam sobreviver em modo home office? Enquanto cruzo o espaço da recepção do prédio para receber minha encomenda, há mais um rosto descoberto, que me estende a máquina de cartão. Sem máscaras. Sem proteção. Só a necessidade urgente de sobreviver, para si e para o filho de sete meses, Isaac, cuja foto o orgulhoso pai me apresenta, no celular. E segue seu percurso, carregando no bolso a única proteção de que dispõe: um pequeno vidro de álcool em gel. No momento que que cruza meu portão mais uma morte é anunciada, alguém publica uma live sobre atividades para crianças no confinamento e como fazer máscaras em casa. E nas ruas cada vez mais silenciosas a ausência dos sons da procissão de Páscoa provoca um vazio no meio do peito e seguimos procurando um sentido real de renascimento, sem filas, compras ou a manifestação externa de sentimentos, enquanto o pequeno Isaac, provavelmente sentado no chão da sala, exatamente como o vi na foto, espera que seu pai retorne mais um dia para casa.
sábado, 4 de abril de 2020
enfim, o terror
E finalmente chegou o dia em que o terror alcanca nossos espacos domesticos.Vem devagar, em um espirro, na tosse abafada na hoora de dormir, nos primeiros casos de pessoas proximas que podem ter contraido. e um frio enorme gela o peito, ao ler os jornais da manha em que todos os dias ha um rosto,uma historia, nas mortes diarias e Às centenas. E o tempo que insiste em passar cada vez mais devagar e a brutal distancia da normalidade que se da, em eventos cancelados, portas de cinemas, casas de shows, cafes, restaurantes,que se fevcham,para quem sabe,nunca mais abrir.assim como as casas, as almas e a vida.aos poucos tudo parece se fechar em si,silencio e dores,nos empurrando cada vez mais para dentro de nos memsos,em uma atmosfera onde on tempo parece se dilatar, diante da compressao de nossos espacos cotidianos. e como viver, sem a dimensao infinita do ser, sem sentir a dor de estar preso, condenados a recolher lentamente as folhas de um calendario,one os dias parecem durar meses e as horas arrastam-se entre a sala e a cozinha, sem remedio possivel, enquanto os ponteiros do relogio e toda a vida parece girar ao contrario,sen que alguem no mundo possar responder:ate quando?
sexta-feira, 3 de abril de 2020
Em silêncio
Estamos em silêncio e a cada vez que um de nós se cala, uma atmosfera mais pesada de medo e insegurança se afirma, como uma densa névoa invadindo as esquinas onde ninguém mais passa. E por todo lado as janelas vão pouco a pouco se apagando e já ninguém mais vai à varanda. Mas a televisão permanece ligada, esperando a novela que não vai começar. E ainda restam dois ou três homens no bar a comentar o futebol do final da temporada e já não há mais vendedores de flores. Só os infinitos corredores das farmácias, com pessoas assustadas, desviantes, pálidas, virando o rosto quando se encontram, continuamente encolhendo os corpos e seguindo seu caminho, mal tocando as máquinas de cartão que as balconistas, sempre as mesmas mulheres sem máscaras e luvas, sem folgas ou perdão, tocando o sujo dinheiro das gentes nas filas e voltando para casa no mesmo ônibus, cada dia mais atrasado e vazio. E os mesmos moradores de rua, com os mesmos velhos jornais. E seus cães. E já são muitos os rostos que não vão mais ver o fim do ciclo e seguimos em nossas rotinas, cada dia mais lentas, menos palavras e mais gestos, mecânicos, cansados, quase dolorosos. Em um lugar onde ter esperança é como uma oração que se desaprendeu a recitar. E o silêncio das ruas é o silêncio das almas que nos acorda antes do nascer do sol para contemplar que a vida lá fora segue, sem nós, mais limpa, mais luminosa, com mais liberdade, as águas dos rios e mares tomadas pouco a pouco por seus reais ocupantes, enquanto esticamos nossos olhos para as espumas brancas que não mais podemos tocar. E a dor que aperta na garganta é que bem sabemos onde reside nossa culpa, a arrogância desmedida de nós entendermos sós, transformadores, arrogantes, agressivos, mudando o mundo ao alcance de nossos dedos e sonhos. O que foi que fizemos? Em um único gesto fomos expulsos, trancafiados em pequenas celas ou pior, expusemos nossos vulneráveis a uma morte desconhecida pelo pecado de não sentir, de não ouvir os sons do mundo onde vivíamos. Então será assim? Seriamos tão inúteis a ponto de seguir tudo sem nossa pretensa intenção de ser? Mas e nossas criações, e as artes, a música, a pintura, as grandes construções, a ciência das descobertas? Não valeriam de nada? E toda poesia que conseguimos captar, em nossa breve passagem pelo mundo? Enquanto ergo meus olhos para pedir ao universo uma resposta, um bando de pássaros cruza o céu, onde as luzes alaranjadas do sol começam a surgir. Em silenciosa e inescapável poesia. Sem palavras ou imagens. Sem Teorias ou Justificativa. Que se basta sem nós. E que não há nenhum gesto humano que possa, minimamente, reproduzir a contento.
domingo, 29 de março de 2020
Alma encantadora das ruas
Ah!eu amo a rua, com seus fluxos constantes de corpos, cores e sons, quase sempre em conflito, misturando-se ao movimento dos carros, das luzes e sombras que cortam o asfalto das praças, o cimento dos prédios e o coração das gentes. Como é possível não ver o outono chegar ou observá-lo de longe, sem misturar meu corpo aos tons de dourado desses três meses de poesia visual, que me atravessa, sempre me atravessou, criando novas e irresistíveis metáforas de cores e versos? Como posso não sentir nos ossos o desespero de não viver essa cidade e percorrer suas esquinas, quando as melodias do verão cessam de soar e de repente faz-se uma pausa no peito da gente, para plantar novamente um outro ano? De repente, não há mais canções, mais flores, apenas um silêncio dolorido, de pranto que se retém, de mãos que se enroscam no colo, de olhares que se perdem nas janelas, olhando para fora. Aqui e ali, já é possível entreouvir as orações, velas e joelhos unidos, repetindo velhas simpatias, pedindo pelos seus. Famílias, amigos, conhecidos, vizinhos, o idioma é uma só saudade de ser, de mãos dadas, abraços que se apertam, sorriso e sonhos. Da minha janela, a saudade da rua me parte ao meio, do reflexo do sol na água, do frio da areia nos pés, dos infinitos tons de dourado desse tempo que sempre fui. E no meio do silêncio, o medo intenso, cotidiano, de não mais poder percorrer essa cidade, de não ver o samba, o jazz, a bossa nas esquinas, de adentrar as galerias, caminhando sem cessar pelo caos urbano do centro do Rio, me perdendo e me achando dentro de mim, com profunda esperança dentro do peito, de me apaixonar pela vida e por tudo que ainda pode ser. Na rua eu me descubro em novas cores, me refaço e me misturo ao caleidoscópio de sentidos, de imagens e sons que fazem parte do que eu sou. Súbito fecho os meus olhos e estou exatamente ali, de frente para os arcos da lapa, vendo os carros passarem, a música, os corpos, a imensa liberdade de ser coletivo. Mais uns passos e já estamos no circo voador, no lavradio, nos sambas que se misturam e que convocam meu corpo a dancar. Abro os olhos e a dor é quase insuportável, porque é como se cada nota ressoasse na pele, cortando, latejando de vontade de sair, de ir, de não restar aqui, na janela do quarto, enquanto a noite cai e o outono caminha mais um dia para longe da dor e do medo. Enquanto todos restamos aqui. Até quando?
quinta-feira, 26 de março de 2020
Enquanto o sol nasce
Hoje a angústia e o peso das recentes notícias me acordaram antes do sol. Como se os novos números de contaminados e mortes pesassem sobre meus ombros, impedindo o corpo de relaxar.É angustiante não poder fazer nada,ou quase nada, além de repetir aos incrédulos,que precisamos ficar em casa. Mais do que isso.É terrível ter os braços cruzados e as pernas presas enquanto os protagonistas do embate entre Estado e empresários se degladiam para decidir quantos sobrevivem ou são sacrificados em benefício da economia, como um jogo de xadrez macabro.E se o governo federal declara que o isolamento total é um erro, apoiado pelo empresariado em fúria pela perda de dinheiro e investimentos e por uma parcela cada vez maior de pessoas para quem o isolamento é uma tortura, as notícias denotam que a chegada do vírus às casas é apenas uma questão de tempo. Triste é pensar que estar em casa é uma opção impossível para grande parte da população .Assim, ainda restam muitos trabalhadores sem poder proteger-se do #coronavirus, convivendo com a insegurança de todos os dias, ao não saberem se levam pra casa o vírus que pode contaminar sua família. Hoje saem números sobre a situação no Rio de Janeiro e, contrariando todas as expectativas, a grande maioria dos doentes tem entre 30 e 39 anos, não por acaso, uma faixa economicamente ativa de pessoas que circulam por aí ainda, por escolha própria ou dos patrões. A cada segundo,os números da curva de crescimento do vírus ao longo do país começa a ganhar contornos, rostos,histórias, parentes e amigos que lamentam as mortes e tentam entender como é possível que ainda não estejamos falando de isolamento total. Ao contrário. Em meio ao crescimento vertiginoso dos casos, inacreditavelmente já são muitas as vozes que se somam a do presidente, conclamando pessoas a voltarem à vida normal.Seria ótimo, não fosse o fato de que não temos testes para todos e os assintomáticos contaminam indiscriminadamente todos aqueles com quem tiverem contato. Enquanto isso, modelos de negócios para aulas, serviços, e informações pululam na rede e outros modos de vida,contato e trabalho entram em ação,além do marketing direcionado a quem pode ficar em casa,por medo ou escolha. Do lado de fora, a vida passa entre ruas desertas e o distanciamento social também impede que vejamos através das janelas abertas os muros que separam o dentro e o fora das cidades. Para todo desânimo e ansiedade, a imagem da luz do sol atravessando as nuvens me dá uma paz desmedida e alguma esperança para pensar que,apesar da incerteza, sobreviveremos,de algum modo.
fonte: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/maioria-dos-contaminados-por-coronavirus-no-rj-tem-de-30-a-39-anos/?fbclid=IwAR2GyTqeIZGCCAmYXEKIHLZ-wPbUPFLd1mNh7MYbCuppO5cKc874vqDuhMg
quarta-feira, 25 de março de 2020
O ponto fora da curva (do gráfico e da vida)
Enquanto tentamos digerir o último pronunciamento presidencial, minimizando os riscos de contaminação com o #Coronavirus e inacreditavelmente conclamando a população a sair às ruas em vida normal, recebemos a notícia dos primeiros números de casos em favelas cariocas. Em podcasts, textos, imagens, a população sem saneamento, água, espaço ou demais itens básicos de sobrevivência tenta explicar o óbvio a jornalistas que, em ritmos de trabalho quase tão insanos quanto os dos profissionais de saúde, tentam convencer a opinião pública de que não dá pra pensar em contenção de contágio sem pensar na faixa da população em situação de risco, desassistida pelos serviços mais básicos de vida. Em um deles, o entrevistado, um morador de seus 50 anos, dá um argumento cabal para a dificuldade de isolar os doentes :"só temos um cômodo na casa", explica o senhor. Enquanto isso academias de ginástica, cursos,faculdades e demais serviços organizam-se para produzir conteúdo e manter seus clientes,pacientes e que tais entretidos e em movimento. As narrativas sobre o #coronavirus alastram-se com velocidade quase tão grande quanto o próprio vírus e já multiplicam-se em rádios, podcasts,boletins e vídeos de muitas horas sobre contaminação, riscos, número de infectados e mortes. Também já há especialistas debruçando-se sobre os números da economia para pensar nos efeitos devastadores da paralização mundial (o tal lockdown) sobre empregos, produção e fluxos de pessoas e bens. O que não se fala,ou pouco se fala é das consequências humanas do isolamento, das práticas genocidas de Estados e instituições, para além de todas as mazelas do distanciamento social e da ansiedade causada pela espera por um pico de contágio em situações para lá de desfavoráveis em muitos cantos do Globo.E enquanto artistas, blogueiras e demais influenciadores digitais seguem pedindo que seus seguidores permaneçam em casa, transportes públicos, portarias, cabines de segurança, e etc. continuam a ser ocupados por cidadãos que não tem como opção a quarentena. E seguimos acompanhando com mórbido interesse o crescimento do número de mortos e contaminados em cada cidade e estudando comportamentos ao longo do mundo, como se em cada ponto do gráfico de contaminação estivesse a chave para nossa salvação . Por maior que seja a exatidão técnica, um gráfico jamais dará conta da enorme quantidade de histórias que circulam, à revelia ou por meio da pandemia, dos rostos assustados das pessoa ao cruzarem umas com as outras nos corredores das farmácias, dos amigos que insanamente decidiram permanecerem juntos no bar em uma rua de subúrbio, dos casais e famílias que criam infinitas formas de estarem juntos em plataformas mundo afora. Nem tão pouco do medo de quem recebe todas as informações sobre contágio, isolamento ,mas é invisibilizado pelos relatórios e previsões do Estado, principalmente o brasileiro. São o ponto fora da curva das previsões de estatísticas, mas representam 16 milhões de pessoas na linha de frente de discursos genocidas e irresponsáveis, como os do presidente.Deus nos proteja.
Apologia ao genocídio em cadeia nacional
Após o pronunciamento mais desastroso de sua carreira pública, Jair Bolsonaro pode ser vítima da máquina de "guerra" ideológica que ele mesmo criou. Utilizando-se de "cortinas de fumaça" informativas divulgando mentiras ao longo da campanha eleitoral de 2018 e durante seu governo, o presidente ignora o poder dos fluxos de fake news dos quais fez uso em larga escala e demonstra, na fala irresponsável sobre a gravidade do COVID-19, total desconhecimento sobre seu papel na República, além de um descaso abissal com a vida dos seus governados, contrariando a recomendação da maior autoridade em saúde do planeta, a OMS,além das determinações de todos os líderes mundiais. Agora, resta a seus apoiadores refletirem sobre os limites da crença nas intenções do mandatário, diante de um cada vez maior bombardeio de informações sobre as mortes, contaminação e medidas de emergência, não somente pela imprensa, mas de todos os lugares, grupos de Whats App familiares entre eles.E agora, José? - devem pensar seus eleitores, se o mesmo sistema que legitimou todas as ações de governo até agora falha, em quem acreditar?Infelizmente não faltarão motivos para que se venha a desmentir Bolsonaro. A curva de contaminação cresce a cada dia e a desastrosa fala do presidente não conseguirá,por mais queira, refutar os assustadores números da pandemia. Resta saber agora o que fazer com Bolsonaro. Incapaz de governar um pais continental que aguarda uma situação de emergência sem precedentes, a quem caberá apontar-lhe a porta de saída?Não importa o nome, desde que seja urgente.
terça-feira, 24 de março de 2020
Um feriado interminável
A cada dia tenho a sensação de que vivemos um loop contínuo, do calendário às notícias, como se o ciclo das informações fosse gerando as mesmas sensações de medo, ansiedade e espera, renovadas a cada 24 horas, tempo que se dilui ao longo do dia, seja nas declarações do Estado, na falta de perspectiva sobre o fim da crise ou do quanto a situação pode piorar. Sempre pode. Enquanto lemos as notícias falarem sobre o corte de salários a trabalhadores, o COVID-19 atinge a Cidade de Deus e outras favelas cariocas, sem que os governos estaduais ou federais movam uma palha para proteger quem quer que seja. O corre é geral, enquanto instituições, bancos, governantes, tentam apagar o incêndio financeiro, sem perceber que queimam junto com a mobília. Nada está no lugar e não há previsão de melhora. Não a curto prazo. Enquanto se tenta pensar em como conter a crescente histeria e os confinados criam diariamente formas de vida indoor, há quem seja obrigado a trabalhar e meio ao continuo bloqueio de vias, transportes e serviços. Portas que se fecham para quem sabe abrir um dia, como um feriado interminável de carnaval, esperando um bloco que nunca vai passar e onde a música já parou já tempos. E é no meio desses constantes intervalos de silencio em que pensamos: como será o depois? Quando virá? Quantos morrerão e como? Teremos comida e água? Seremos todos contaminados ou a mais constante? Sobreviveremos? Essas perguntas não estão na fala das pessoas, mas atravessam a imposição do cotidiano que a quarentena nos dá, enquanto sofremos a esquizofrenia de tentar viver uma normalidade há muito perdida. E enquanto há um genocídio em marcha de famílias inteiras em áreas pobres e trabalhadores informais. Enquanto o café das reuniões intermináveis de governos esfria e a imprensa espera do lado de fora, enquanto os profissionais de saúde vão resistindo, sem proteção ou ajuda, o dia seguinte é um universo desconhecido. Aqui e ali famílias que antes encontravam-se apenas nas redes sociais, são obrigadas a compartilhar o mesmo espaço de ansiedade de espera e os conflitos aumentam a cada dia no mesmo passo que empresas e marcas já pensam como fazer para manter a economia funcionando. Talvez fosse necessário lembrar que a palavra economia vem de oikonomos, casa, espaço construído por afeto, plantado todos os dias em cuidado e proteção sim, perdemos a ideia de casa que tínhamos, fluxos de informação e valores, em um mundo cada vez mais conectado, onde as redes produtivas por vezes interrompem e atravessam as de solidariedade. E a vida segue. Da ideia de aldeia global, perversa porque superficial, diante das mazelas que a globalização traz, ou de uma imensa moradia onde as coisas estavam mais ou menos organizadas e as pequenas ou grandes perversidades humanas mantinham-se sob a superfície. Agora que dependemos uns dos outros em uma nova configuração comunal ainda mais orgânica, porque desta depende a vida de cada um de nós. Mas como passamos tanto tempo acreditando que seriam apenas os nossos atos a escolher nosso destino, sofremos a dor de não ter o controle e não saber o final da estrada, como se em algum momento soubéssemos. O posicionamento dos cientistas é unânime ao indeterminar o prazo de fim da pandemia, se é que teremos. Mas no fundo o que o Corona Vírus nos trouxe foi o que sempre esteve aqui: a certeza do descontrole e o medo da finitude, onde é sempre urgente abraçar quem amamos, ver os amigos, dizer eu te amo e contemplar o pôr do sol, para além de produzir a vida de todos os dias. Por medo da incerteza colocamos o sobreviver na frente do viver e hoje infelizmente temos tempo demais para pensar nos não feitos. Ainda assim, chegar na janela e ver o céu se tornar cada vez mais escuro, as nuvens pesadas atrás da monta e o silêncio que se faz em cada esquina - onde nem mesmo a novela serve para aplacar a dor de existir - não me faz desejar menos o sol ainda que seja o último. Porque sempre poderia ser. Ao contrário. A saudade da rua, do caminhar sem direção, a sensação dos abraços que ainda não demos, das imagens e histórias que ainda temos a contar, me parece ser o componente que ainda nos mantem em pé.
segunda-feira, 23 de março de 2020
Semana 2- A dura realidade da espera
Em menos de uma semana os casos de Corona Virus, o temível COVID-19 começam a tomar a aumentar de forma representativa na imprensa. E as pressões para a ação do governo em relação a empresas e trabalhadores não impede a proposta de cortar salário de empregados impedidos de trabalhar.Aqui e ali alguns poucos optam pelo Home Office enquanto a massa de trabalhadores enfrenta a diminuição dos transportes, a precariedade dos recursos e, inevitavelmente, a exposição ao vírus. Enquanto o governo Federal e Estadual se degladiam, seguimos tentando mudar nossos hábitos para modo virtual, dos que podem estar nesse modo. Nesse cenário, em que uma parcela da população tenta não enlouquece de tédio, ansiedade e isolamento social, a outra parte,ainda maior, habita moradias sem a menor chance contra o vírus e, para tornar mais grave, sem ação efetiva do Estado em contrário. Mais rápida do que a contaminação pelo Covid-19 somente a certeza de que há um genocídio em marcha e não podemos ocupar as ruas para impedi-la.Enquanto profissionais de saúde, caixas de supermercados e farmácia mantem-se na linha de frente do risco, agências de publicidade e profissionais de marketing se perguntam o que será das marcas e como alcançar o público em tempo de crise.Vejo pelas mensagens dos meus amigos da timeline que todos esperam uma explosão. De casos, de nervos, de falta de esperança.O que irá acontecer se não olharmos para a população vulnerável ? Quantas mortes pesarão sobre nós?Enquanto isso o governador barra a entrada e saída do Estado fluminense, mas o presidente da república mantém o espaço aéreo aberto se já se fala em preservar 50% das vidas. Pela fala do ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, a semana que começa é crucial para evitar a maior contaminação das pessoas. Enquanto isso, o presidente segue diminuindo a importância da pandemia. Enquanto leio as notícias, tentando não entrar em pânico, vejo pelo olhar das pessoas, printadas nas telas dos celulares das redes sociais mundo afora, que estamos todos no limite. Famílias confinadas em espaços, exíguos ou não, aguardam ansiosamente o desfecho desse inacreditável episódio de Black Mirror, sem saber quem sobreviverá no final. E seguimos sem abraço, contato, risos, para ao menos diminuir o impacto do meteoro.
O longo outono
Dos livros que fizeram minha infância mais feliz e silenciosa, a série norte americana sobre Laura Ingalls acompanhou grande parte dos meus dias, com sua narrativa sobre uma família pioneira, que atravessa os Estados do Winsconsin até Iowa (cerca de 323 milhas) a bordo de uma carroça de madeira. No sexto livro a autora relata uma grande nevasca que atinge o povoado onde Laura e sua família viviam, bloqueando os trens e interrompendo o abastecimento de comida de famílias inteiras, que ficam à beira da inanição por sete meses. Em dado momento, nos últimos dias antes de finalmente conseguirem desbloquear o trecho de teoria e fazer os trens passarem, a autora pontua os últimos dias com o que restava dos suprimentos, uma farinha escura suficiente para fazer um biscoito para cada um dos membros da família e nada mais. Nesses dias de quarentena, em que a insegurança e o medo dominam nosso imaginário, uma imagem, construída por mim a partir da leitura, vem continuamente a cabeça: após o longo inverno a família de Laura recebe um precioso barril de amigos distantes de igreja que frequentavam, contendo roupas, livros, sapatos e comida, suficiente para que todos os Ingalls pudessem finalmente celebrar o natal cm os vizinhos, sobreviventes do período de fome e medo. Todos os dias, quando leio as notícias que vem da contaminação em cada Estado, dos primeiros casos em favelas, do descaso do Estado e da insegurança que nos cerca, rezo para que possamos finalmente alcançar o dia em que seremos todos sobreviventes do longo outono que se aproxima, unidos novamente para abrir nosso barril de natal.


sábado, 21 de março de 2020
Do lado de dentro
Faz uma semana que estamos vivendo nossa distopia particular e o intenso barulho da cidade, em vozes e sons que se cruzam, vai se tornando aos poucos um burburinho cheio de silêncios. E medo. Do lado de foram ficam as memórias da vida tal qual era, com todas as pequenas certezas que a ignorância nos dá, os perigos de sempre, as notícias do dia, as imagens que construíamos, clique a clique, em cada passo que dávamos. De repente, à luz intensa dos holofotes contemporâneos fez-se uma inevitável escuridão, onde ficamos como cegos tateando uma saída que não chegará. Quantos séculos faz que esperávamos o fim de semana, as férias do ano, o chopp com os amigos, a mudança ou o telefonema? Ainda hoje eu podia lembrar da última exposição que visitei, do cheiro do piso de madeira do Centro Cultural dos Correios, da luz do sol atravessando a rotunda do CCBB, nas minhas constantes deambulações, desenhando a cidade no ritmo dos meus pés. Enquanto caminho pela casa, os últimos dias vem me visitar, como um filme do qual eu não me recordo o final. Os dias de verão, o cheiro da agua salgada, o frio da areia nos pês. E os dias de carnaval e de gastar desmedidamente todas as cores que ficam guardadas durante o ano, as saias, fitas, tintas, todas espalhadas nas ruas, nas retinas da gente, nos corpos suados, bailando sobre as pedras portuguesas, entoando as marchinhas que ouvia da voz melodiosa da minha tia, na hora de dormir. E era a estrala Dalva em pessoa que impávida, erguia as mãos, na lira do boitatá. Já no final daquela interminável semana de carnaval eu ainda cruzaria a cidade para ouvir Chico, na voz das mulheres, o coração ousando bater forte de novo, a pressa arrancando as meias arrastão pelo caminho, para sentir nos pês a areia da praia. E já foi o samba, marcando no chão, o compasso da Banda. E já éramos muitas sambando ali, mulheres, Genis, Marietas, acordando para o ano que vinha. Ah! Se soubéssemos, teríamos virado a noite em cantoria, jogado nossos corpos no mar, apenas mais uma vez, dançando em roda sob a chuva que caia, sem mais peso, sem mais dor, só alegria de existir. Enquanto faço o café as vozes das mulheres vão ficando mais e mais distantes, enquanto o cada vez maior silencio da cidade se i¬¬mpõe em todas as mentes. No primeiro clique imagens de famílias, reunidas, tentando manter uma rotina. Em todos os rostos, nos sorrisos cansados, uma pergunta soa-te quando? Dos especialistas vem a informação de que nossa quarentena durará meses de um luto da rotina, da liberdade de ir e vir, do desconhecimento geral do risco de ser e estar. Meses quando todos os nossos medos, exacerbados pelo cinema, se tornaram verdade. E no fundo dos nossos olhos, captados pela webcam, há uma verdade silenciosa que, em nossa pacifica covardia, não ousamos dizer: e todos os outros, aqueles que são maioria, sem teto, sem luz e sem agua, sem leitos nos hospitais de campanha, sem números para s tornarem estatísticas? Seremos responsáveis por suas mortes, ao ousarmos sair de casa enfrentando a resolução estatal? O que fizemos para carregar esse peso nas costas? A resposta é simples, bem sabemos. Calamos. Por tempo demais. Dores demais. Não sabíamos então os nomes e endereços das vítimas de nosso descaso? Por acaso achamos que a intervenção divina se encarregaria de tudo? Em um mundo onde enclausura-se é insano e perverso, bem sabemos , saber quais corpos estarão na praça, sem encontrar lugar. Deus nos perdoe.
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